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“SUS cobra o preço do apagão no Ministério da Saúde pós-pandemia”, por Enio Salu

"SUS cobra o preço do apagão no Ministério da Saúde pós-pandemia", por Enio Salu 1

Referências: Geografia Econômica da Saúde no Brasil e Jornada da Gestão em Saúde no Brasil

(*) todos os gráficos e ilustrações são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil e do material didático dos cursos da Jornada da Gestão em Saúde e da Escepti

Não recomendo a leitura se estiver esperando críticas à direita, esquerda, centro, centrão … ao presidente, governador, prefeito, senador, deputado … é um conteúdo sem opção política ou ideológica – não vale a pena perder seu tempo se estiver esperando algo diferente de uma discussão técnica !

Estamos todos sentindo o peso da inflação, e tirando uma parcela absolutamente insignificante da população que tem recursos financeiros suficientes para “não estar nem aí com a cotação do dólar”, cada um de nós está abrindo mão de algumas coisas na vida, de uma forma ou de outra.

Quando o dinheiro falta procuramos gastar melhor … “economizar”, como dizem os “mais antigos” como eu:

  • Por que pagar mais caro por alguma coisa que podemos pagar mais barato ?
  • Esta é a essência do significado da palavra gestão: fazer melhor uso dos recursos disponíveis – o melhor gestor é o que “entrega o necessário gastando o mínimo possível” !

A politização do Ministério da Saúde causa o efeito exatamente contrário:

  • Entramos em um ciclo onde o SUS gasta mais hoje para entregar a mesma coisa que entregava antes, mas ao contrário da justificativa do aumento dos preços nas “prateleiras dos mercados”, na “bomba de gasolina” …
  • … é porque está consumindo mais do que consumia para entregar a mesma coisa;
  • Na verdade, em alguns casos entregando até menos;
  • E no SUS é muito fácil entender e justificar a afirmação, porque a tabela de preços do SUS (a que conhecemos pelo nome de SIGTAP) sofre pouca atualização comparada ao “seu tamanho total” … a maior parte dos itens tem os mesmos preços desde que “o Indiana Jones soltou o Graal na lava ardente” !
  • Ou seja, se o reajuste de preços na tabela ocorre em uma quantidade pequena de itens, estamos gastando mais para tratar as doenças, consumindo mais recursos … empenhando “mais energia” para fazer a mesma coisa … ou seja, fazendo uma péssima gestão !

Os gráficos demonstram isso:

  • O da esquerda a evolução do volume de internações – notar que antes da pandemia vinha crescendo … ao chegar 2020 (início da pandemia) caiu … voltou a crescer em 2021 … mas fechamos 2021 com uma quantidade ainda inferior à tínhamos em 2016;
  • Considerando este indicador, retrocedemos 6 anos de evolução de internações vinha tendo antes da pandemia … evolução às custas de muito suor diga-se de passagem !
  • O da direita a evolução do gasto com internações – notar que havia um crescimento discreto até 2020, mas em 2021 um acréscimo sem precedentes;
  • O gráfico de baixo mostra a relação (o valor médio … ou ticket médio) das internações – notar que a partir de 2020 o valor médio gasto em internações começou a aumentar “estratosfericamente”.
  • Considerando que “praticamente” não existe inflação de preço, são números indiscutíveis: estamos gastando muito mais nas internações do que gastávamos antes da pandemia !

E existe um “viés subliminar” (abusando em ser prolixo):

  • São valores apontados em AIH’s – e nas AIH’s não são lançados medicamentos de alto custo;
  • Considerando que a partir de 2020 houve um acréscimo de tratamentos COVID-19, onde a utilização de medicamentos de mais alto custo é menor comparado com outras especialidades que reduziram o volume de internações (as eletivas que “foram colocadas no gelo”), o aumento de gastos somente em itens lançados em AIH’s a partir de 2020 ainda é proporcionalmente menor do que os gastos totais …
  • … mas vamos ficar só com estes gráficos que tabulam lançamentos em AIH’s … para “ser bonzinho” com o Ministério da Saúde !

"SUS cobra o preço do apagão no Ministério da Saúde pós-pandemia", por Enio Salu 2

Defensores da “gestão da saúde pública pós pandemia” vão dizer que aumentou muito o custo com o tratamento de doenças infecciosas e parasitárias:

  • Antes tratávamos doenças associadas a este CID em unidades não intensivas, e com a pandemia, houve nestes casos utilização “em massa” de unidades intensivas e semi;
  • Em relação ao grupo CID 01 é verdade;
  • E é tão verdade que mesmo os próprios pacientes COVID-19 passaram a custar mais caro ao longo do tempo como demonstra o gráfico …
  • … no início da pandemia, sem vacina, os “mais antiguinhos como eu” internavam em UTIs mas morriam rapidamente … com a vacina, passaram a predominar as internações dos mais jovens, especialmente os sem esquema de vacinação completa – eles ficam mais tempo internado e consomem mais – custam mais – mas se salvam (graças a Deus) !

Mas isso não “livra a barra” da má gestão:

  • O gráfico de cima demonstra a evolução do ticket médio entre outubro de 2019 (4 meses antes da pandemia) e dezembro de 2021;
  • O gráfico de baixo a evolução do TM em internações do CID 01;
  • Somente ao comparar a característica das curvas de evolução seria suficiente para afirmar que a evolução dos gastos gerais do SUS está longe de ser equiparada com as internações COVID-19 !

"SUS cobra o preço do apagão no Ministério da Saúde pós-pandemia", por Enio Salu 3

É só “pegarmos” dois outros CIDs que mesmo a pandemia não teve força para adiar as internações para desmentir completamente a suposta “desculpa” de que foram as internações de COVID-19 as únicas responsáveis pela elevação nos gastos com as internações:

  • Nos dois casos, no mesmo período acima, o valor médio das contas “subiu” assustadoramente;
  • Não somente os pacientes que contraíram COVID-19 … mas todos que a pandemia impôs “delay” para internar, estão custando mais caro;
  • Se os preços pagos pelo SUS aos serviços praticamente não se elevaram … é lógico que os pacientes estão consumindo “mais do mesmo preço” … ao invés de utilizar 1 dia de UTI, gastam mais … pacientes que não necessitavam de albumina, utilizaram, ou os que já necessitavam passaram a utilizar mais … efeitos colaterais em pacientes com menor capacidade de absorver o tratamento aumentaram … e assim por diante …

Com a politização da gestão pública da saúde, ficamos discutindo cloroquina para quem nem tinha COVID-19, enquanto pacientes que necessitavam de internação para extrair nódulos tiveram que esperar por falta de leito;

  • Quantos pacientes com arritmia tiveram seus tratamentos postergados por falta de ação de contingência para dispormos de leitos para eles ?
  • A isso se resumiu a gestão pública da saúde do Ministério da Saúde politizado … ficaram olhando para “as formiguinhas” sem perceber que uma “manada de elefantes está passando pelas costas, e fazendo barulho … dançando lambada” !

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O aumento do TM foi generalizado:

  • Os gráficos demonstram que em 2 anos o TM de internações do aparelho respiratório foi da ordem de 60 %;
  • As do aparelho digestivo de ~20 % !

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Não há CID que escape:

  • Alguns mais, outros menos …
  • … mas todos com aumento … em um ambiente de inflação de preços praticamente = 0 … qualquer aumento de custo maior que 1 % já seria alto …
  • … os gráficos demonstram muito mais que alto: exorbitantes !

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Até mesmo doenças em que seria impensável imaginar aumento no TM:

  • Lesões e envenenamentos não são eletivas;
  • Mas com a população mais debilitada por ausência de prevenção e promoção adequadas da saúde, mesmo estes casos improváveis trazem para a rede pacientes que vão consumir mais recursos em saúde, independente de qual o tipo de doença que estejam associados;
  • Números que não dão direito à replica, treplica … números do próprio SUS !

Porque iniciamos lá em cima dizendo que não se trata de criticar apenas o ministério, e consequentemente apenas o presidente:

  • SUS é uma gestão matricial (federal, estadual / distrital e municipal);
  • Só se chega a esta situação se todos deixarem acontecer … nenhum ministro ou presidente tem força e autonomia para fazer isso, se os outros entes da federação não quiserem deixar.

E vivemos um cenário em que:

  • Além dos outros entes da federação estarem assistindo passivamente o apagão de gestão no Ministério da Saúde;
  • Os outros poderes (legislativo e judiciário) também estão … ano de eleição “não é mole não” – a palavra de ordem é coligar com amigos e inimigos para ganhar;
  • Não vemos movimento eficaz do legislativo para modificar o cenário, e nem do judiciário em dar prioridade às questões de saúde pública.

E no “ano mais eleitoral da história da República Brasileira”, nenhuma proposta real de mudança deste cenário se apresenta “na fala” dos candidatos:

  • Os candidatos só falam em economia – a economia que só tem “definhado” nas últimas décadas trocando um Posto Ipiranga por outro igualzinho
  • … e um ou outro vem com discursos de combate a corrupção que a gente assiste desde a época da “caça aos marajás”, que destronou o “apologista das carroças” e não deu em nada !

Infelizmente, como já defendido em outros posts, o apagão do MS só tem alguma chance de acabar lá para o terceiro trimestre de 2023 … quem sobreviver verá.

Até lá vamos ver estas curvas de TM continuarem “apontando lá para o alto” !

Aproveito para informar que estão abertas as inscrições para os cursos de maior demanda de interessados em Junho e Julho:

  • GNAS02 – Práticas Comerciais da Área da Saúde Pública e Privada no Brasil
  • GNAS17 – Melhores Práticas da Gestão do Faturamento em Hospitais, Clínicas e Centros de Diagnósticos na Saúde Suplementar e no SUS
  • GNAS12 – Como Avaliar Preços de Pacotes em Hospitais, Clínicas e Centros de Diagnósticos
  • GNAS13 – Como Definir e Precificar Pacotes em Operadoras de Planos de Saúde
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