{"id":20093,"date":"2020-02-04T15:03:59","date_gmt":"2020-02-04T18:03:59","guid":{"rendered":"https:\/\/grupomidia.com\/quemrealiza\/?p=20093"},"modified":"2020-02-04T15:03:59","modified_gmt":"2020-02-04T18:03:59","slug":"o-agro-em-janeiro-os-impactos-do-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grupomidia.com\/quemrealiza\/o-agro-em-janeiro-os-impactos-do-coronavirus\/","title":{"rendered":"O Agro em Janeiro: os Impactos do Coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"<p>Janeiro trouxe uma enorme movimenta\u00e7\u00e3o ao mundo e, consequentemente, ao agro. Aparentemente, temos tido uma grande surpresa por m\u00eas, se olharmos os \u00faltimos.\u00a0 Ir\u00e3, acordo EUA-China, Coronav\u00edrus, \u00a0dentre outros que v\u00e3o aparecendo e exigindo a nossa capacidade anal\u00edtica para os prov\u00e1veis impactos. Vamos a eles!<\/p>\n<p>Foi divulgada a fase 01 do acordo EUA-China, estipulando no agro que as compras da China crescer\u00e3o US$ 32 bilh\u00f5es em dois anos ou US$ 16 bilh\u00f5es em m\u00e9dia ao ano (seriam US$ 12,5 bilh\u00f5es neste e US$ 19,5 bilh\u00f5es no pr\u00f3ximo). Isso, considerando as compras de US$ 24 bilh\u00f5es anuais antes da crise, levaria o n\u00famero a US$ 40 bi\/ano. Caso a China siga a meta de importa\u00e7\u00f5es do agro americano, poder\u00e1 praticar discrimina\u00e7\u00e3o comercial e ter problemas na OMC.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, muitas empresas chinesas de alimentos transformaram-se em multinacionais neste per\u00edodo, como exemplo a COFCO. Interfer\u00eancias governamentais na cadeia de suprimentos dessas empresas podem comprometer a competitividade num mundo onde a constru\u00e7\u00e3o de margens \u00e9 a lei. Enfim, muitos artigos mostram ceticismo em rela\u00e7\u00e3o a esse acordo, uma vez que os objetivos de cada pa\u00eds s\u00e3o muito mais estrat\u00e9gicos e de longo prazo. Para os esperados impactos negativos ao agro brasileiro a dimens\u00e3o dos preju\u00edzos pode ser bem menor que a imaginada.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 peste su\u00edna africana, seus danos seguem avan\u00e7ando. A produ\u00e7\u00e3o de su\u00ednos na China, em 2019, foi a menor em 16 anos, com um total de 42,5 milh\u00f5es de toneladas (21% menor que 2018). O pior \u00e9 que foi detectado um caso de infec\u00e7\u00e3o de peste su\u00edna africana a 12 km da fronteira com a Alemanha, o maior produtor europeu de carne su\u00edna. As quest\u00f5es importantes, hoje, nas prote\u00ednas s\u00e3o a velocidade de recupera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o chinesa de su\u00ednos, que deve levar pelo menos dois anos.\u00a0 E para complicar mais ainda o m\u00eas, foi registrado um caso de Influenza Avi\u00e1ria na prov\u00edncia de Hunan, com abate consider\u00e1vel na quantidade de aves. Caso isso se espalhe, o quadro muda radicalmente para pior.<\/p>\n<p>A crise com o Ir\u00e3, que poderia resultar em guerra e aparentemente tumultuar os importantes neg\u00f3cios do Brasil no Oriente M\u00e9dio, sumiu do radar com os problemas mais recentes do Coronav\u00edrus, com o processo de impeachment nos EUA e, agora, com as elei\u00e7\u00f5es. Resultados no Iowa mostram que Bernie Sanders larga na frente. Na minha humilde leitura, nada melhor para Trump do que enfrentar a polariza\u00e7\u00e3o e Sanders \u00e9, aparentemente, o mais \u00e0 esquerda dos Democratas. Ali\u00e1s, o atual presidente americano n\u00e3o pode reclamar do Brasil. O saldo comercial a favor dos EUA pulou de US$ 7,7 bilh\u00f5es para US$ 11,3 bilh\u00f5es, considerando dados at\u00e9 novembro de 2019. Os EUA ocupam 17% da pauta importadora do Brasil e representamos 2,5% das exporta\u00e7\u00f5es dos EUA.<\/p>\n<p>No Brasil, o mais recente Boletim Focus traz que as proje\u00e7\u00f5es para o IPCA recuaram de 3,47% para 3,40% para este ano, e permaneceram em 3,75% para 2021, mesmo com a recente desvaloriza\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio. Para o PIB, estimam 2,31% em 2020 e 2,50% no pr\u00f3ximo. A taxa de c\u00e2mbio para dezembro aumentou de R$\/US$ 4,05 para R$\/US$ 4,10, e fica em R$\/US$ 4,05 para 2021. J\u00e1 a Selic deve cair ainda mais para 4,25% no final deste ano e 6,00% no final do pr\u00f3ximo ano.<\/p>\n<p>Foram muito bem em Davos o ministro Paulo Guedes e os representantes do Brasil, mostrando que estamos em outra dire\u00e7\u00e3o e acelerando. Apenas desnecess\u00e1rios os escorreg\u00f5es na \u00e1rea ambiental, que mesmo sendo mal compreendidos fez estragos, e em sugerir impostos para a\u00e7\u00facar e outros produtos. Esse governo entrou para cortar gastos e impostos, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Importante tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o de um conselho para a Amaz\u00f4nia e a presen\u00e7a do experiente vice-presidente neste time. Neste ano, nossa agenda mais importante, na qual aparentemente tudo joga a favor, \u00e9 na quest\u00e3o ambiental, e a\u00ed est\u00e1 o maior risco. O plano para combate \u00e0s queimadas em 2020 deveria ser publicado e poder receber contribui\u00e7\u00f5es do mundo todo, num f\u00f3rum digital. N\u00e3o podemos repetir 2019.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o vem vindo muito bem. A nova estimativa da CONAB levou a safra 2019\/20 de gr\u00e3os para 248 milh\u00f5es de toneladas, 2,5% maior que a anterior. Clima, cr\u00e9dito, \u00e1rea e produtividade s\u00e3o os quatro fatores apontados. A \u00e1rea chega a 64,2 milh\u00f5es de hectares (1,5% maior) e produtividade m\u00e9dia ficou 1% maior, em 3.864 kg\/ha. O milho deve ficar em 98,7 milh\u00f5es de toneladas, 1,3% menor que a \u00faltima safra. Espera-se redu\u00e7\u00e3o de 3% na segunda safra, devido aos riscos clim\u00e1ticos. Algod\u00e3o tem aumento de 1,1%, chegando a 2,8 milh\u00f5es de toneladas de pluma. N\u00e3o podemos ter problemas de clima na segunda safra!<\/p>\n<p>Na carona destes n\u00fameros, a nova estimativa do Valor Bruto da Produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de R$ 674,8 bilh\u00f5es, 7% acima do ano passado, que foi de R$ 631 bilh\u00f5es. Nas atividades agr\u00edcolas aumentou em R$ 23 bilh\u00f5es, para R$ 430,1 bilh\u00f5es, e nas atividades pecu\u00e1rias R$ 244,7 bilh\u00f5es, R$ 16,3 bilh\u00f5es acima.<\/p>\n<p>A expectativa de uma produ\u00e7\u00e3o recorde de soja, chegando perto de 125 milh\u00f5es de toneladas, pode atuar no sentido de pressionar os pre\u00e7os. Aparentemente, o Mato Grosso vai compensar a perda no Rio Grande do Sul devido ao clima. Hoje a soja brasileira continua mais atrativa na China, com a tarifa de 25% aplicada \u00e0 americana. Chegamos a praticamente 35% da produ\u00e7\u00e3o mundial de soja e 50% do com\u00e9rcio, \u00e9 incr\u00edvel a hist\u00f3ria da soja. Estimativas apontam que o custo do transporte usando a melhoria log\u00edstica j\u00e1 proporcionada no Brasil est\u00e1 entre 15 a 20% menor.<\/p>\n<p>Ponto positivo em janeiro foi a miss\u00e3o do agro brasileiro na \u00cdndia. Em 2019, vendemos a este pa\u00eds US$ 676 milh\u00f5es, liderados por \u00f3leo de soja, a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o, feij\u00e3o, pimenta, \u00f3leos essenciais, suco e milho. Considerando o potencial deste mega mercado no futuro, \u00e9 fundamental construir as pontes empresariais e melhorar o ambiente institucional para as trocas, e estimul\u00e1-los a fazer etanol e tirar a\u00e7\u00facar do mercado mundial. Parab\u00e9ns \u00e0 ministra Tereza Cristina e ao time do MAPA e APEX.<\/p>\n<p>Antes de fechar o artigo com os cinco fatos do agro de fevereiro, um deles, como n\u00e3o poderia deixar de ser, \u00e9 o Coronav\u00edrus, e este merece aten\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p>Minha an\u00e1lise, agora no final de janeiro sobre os impactos do Coronav\u00edrus no agro, resumo nos seis pontos a seguir:<\/p>\n<p>1 \u2013 Qual o tamanho da infec\u00e7\u00e3o? A SARS levou nove meses para ser controlada. Se por um lado hoje temos mais fluxos de pessoas, temos tamb\u00e9m mais tecnologia e o aprendizado com a crise anterior. A China demorou para comunicar e agir, mas depois entrou com for\u00e7a total. O mundo tamb\u00e9m aparentemente parece estar melhor preparado. A menos que sejamos surpreendidos com algo novo na contamina\u00e7\u00e3o, acredito que ela poder\u00e1 ser menor e controlada mais rapidamente.<\/p>\n<p>2 \u2013 Qual o tamanho da desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica?\u00a0 Creio que vai depender muito das medidas do Governo da China para compensar a perda de neg\u00f3cios e fechamento tempor\u00e1rio de atividades, que mais uma vez, dependem da primeira pergunta. Pacotes de est\u00edmulo j\u00e1 sendo desenhados.<\/p>\n<p>3 \u2013 Onde a desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica impacta mais? A desacelera\u00e7\u00e3o impacta mais no setor de servi\u00e7os, como turismo, transportes, entretenimento, restaurantes e outros. \u00c9 o primeiro a ser limitado e a ser cortado, seguido de bens industriais, cuja compra pode ser postergada.<\/p>\n<p>4 \u2013 Quais os impactos nos alimentos?\u00a0 A alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00faltima coisa a ser cortada por uma fam\u00edlia com restri\u00e7\u00f5es de renda, e nesta, primeiro sofrem os produtos mais sup\u00e9rfluos, como sobremesas e outros, e por \u00faltimo os mais b\u00e1sicos, que \u00e9 onde entra a pauta exportadora do Brasil.<\/p>\n<p>5 \u2013 Restri\u00e7\u00f5es aos fluxos de produtos na China podem atrapalhar suas cadeias de produ\u00e7\u00e3o? Sim. Falta de ra\u00e7\u00e3o amea\u00e7a a produ\u00e7\u00e3o de frango em Hubei e outros locais. Depende tamb\u00e9m da pergunta 1. Chineses podem precisar importar mais devido a problemas de falta de ra\u00e7\u00e3o e outras restri\u00e7\u00f5es, pois a prioridade \u00e9 controlar o v\u00edrus, mesmo que tenha que se importar mais produtos congelados e seguros.<\/p>\n<p>6 \u2013 Pode haver impactos comportamentais com a crise?\u00a0 Sim, \u00e9 preciso observar se com este problema, haver\u00e1 alguma migra\u00e7\u00e3o de consumo destes produtos mais ex\u00f3ticos (morcegos, cobras e outros) mais para produtos seguros, como s\u00e3o as carnes tradicionais de frango, bovinos e su\u00ednos. Pode haver tamb\u00e9m corrida para estoques destes e a\u00e7\u00f5es do governo em importa\u00e7\u00f5es emergenciais para suprir a demanda.<\/p>\n<p>Li muitas an\u00e1lises negativistas, posso estar enganado, mas colocando no balan\u00e7o as 6 quest\u00f5es acima, minha leitura hoje \u00e9 que o Coronav\u00edrus pode acabar sendo uma oportunidade \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es do Brasil, principalmente das carnes?<\/p>\n<p>Os cinco fatos do agro para acompanhar agora diariamente em fevereiro s\u00e3o:<\/p>\n<p>1) Os impactos do Coronav\u00edrus nas exporta\u00e7\u00f5es;<\/p>\n<p>2) O andamento da nossa safra, das exporta\u00e7\u00f5es e o comportamento do clima, principalmente na segunda safra de milho. Al\u00e9m da nossa, acompanhar o andamento da safra na Argentina, que \u00e9 um pouco menor que a do ano passado, mas maior que \u00faltima estimativa.<\/p>\n<p>3) China e \u00c1sia: seguir not\u00edcias dos impactos da peste su\u00edna africana na \u00c1sia nos pre\u00e7os e quantidades de carnes importadas do Brasil;<\/p>\n<p>4) Efetiva\u00e7\u00e3o do acordo comercial China e EUA e press\u00e3o nos pre\u00e7os dos nossos produtos;<\/p>\n<p>5) O andamento das reformas no Brasil, com a retomada o crescimento e seus impactos ao agro e ao c\u00e2mbio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este artigo foi redigido por Marcos Fava Neves, Professor Titular das Faculdades de Administra\u00e7\u00e3o da USP em Ribeir\u00e3o Preto e da EAESP\/FGV em S\u00e3o Paulo e especialista em planejamento estrat\u00e9gico do agroneg\u00f3cio.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Janeiro trouxe uma enorme movimenta\u00e7\u00e3o ao mundo e, consequentemente, ao agro. 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