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Valdir Ventura, CEO do Grupo São Cristóvão Saúde, fala sobre os ensinamentos deixados pelo seu pai, Américo Ventura

Empreendedor. É assim que Valdir Ventura define seu modelo de gestão. O engenheiro traz uma sólida experiência no setor automobilístico, ocupando cargos importantes na Ford, até chegar à presidência do Grupo São Cristóvão Saúde. Mesmo não tendo atuado diretamente com seu pai, Ventura diz que sua inspiração profissional o influência diretamente. “Sr. Américo Ventura é e sempre será o meu grande exemplo de liderança. Além de homem visionário, era também um grande empreendedor”. A seguir, Ventura também fala sobre os desafios da gestão, o momento delicado que o país atravessa, a importância do cuidado na assistência à saúde e alerta: “é preciso ter em mente de que uma organização de saúde não é uma organização qualquer”.

1-Conte um pouco sobre a sua infância.

Tive uma infância absolutamente feliz, vivida no bairro da Mooca, em São Paulo. Com pais maravilhosos, pude ser criança na verdadeira acepção da palavra: me divertia em brincadeiras de rua, jogava bolinhas de gude, bola e pião com amigos e primos, andava de carrinho de rolimã.

Um episódio muito marcante foi quando ganhei o uniforme completo do time do meu Tio Chico, português e torcedor fervoroso da Portuguesa de Desportos. Por muito tempo foi difícil querer usar outra roupa. São doces memórias afetivas construídas que ressoam dentro de nós a vida toda, e que faço questão de compartilhar carinhosamente com os meus netos quando estamos juntos.

2- Como o sr. descobriu a sua vocação?

Meu pai havia concluído a construção do Hospital e Maternidade São Cristóvão e, mobilizado pela conquista, aspirei o sonho de me tornar médico. No entanto, ao acompanhar a minha mãe em um procedimento ambulatorial que envolvia seringas, agulhas e boa quantidade de sangue, meus sentidos falharam. Acordei algumas horas depois ainda zonzo, mas com a certeza de que deveria escolher a engenharia. A medicina perdeu um ótimo engenheiro!

3- como começou sua trajetória profissional até chegar ao GSCS?

Minha formação acadêmica é a engenharia. Entrei na multinacional automobilística Ford Company Brasil como estagiário e fui paulatinamente galgando os degraus: como trainee, engenheiro, gerente de departamento de área e, finalmente, diretor de linha veicular. Foram 32 anos de uma feliz e orgulhosa trajetória.

Assumi a presidência do Grupo São Cristóvão Saúde em julho de 2007. A entidade, que neste ano completará em dezembro 109 de existência, foi dirigida inicialmente por meu avô e, depois, por longos anos, pelo meu pai. Então tenho vínculos muito fortes com a instituição.

4- Olhando para o início de sua de carreira, quais foram os principais desafios que você encontrou em sua profissão?

Meu maior desafio profissional foi, enquanto engenheiro de formação, assumir a presidência de uma instituição centenária pertencente ao complexo e multidimensional setor da saúde. Apesar do descrédito e da resistência de alguns pelo fato da minha formação acadêmica não ser da área da saúde, acho que superei isso mostrando o meu trabalho.

5- Quem foi seu maior incentivador para seguir essa profissão?

Assumi a direção da instituição dez anos após a morte de meu pai. Então eu não diria que tive um incentivador, mas sim um grande incentivo, que foi o honroso caminho construído e solidificado por ele, o administrador e diretor Sr. Américo Ventura. Ele, dentre outras heranças, me deixou como norte a retidão, a solidariedade e outros tantos valores que pautam a minha administração.

6- Qual o seu conselho para o profissional que deseja seguir uma carreira de gestão na saúde?

Em primeiro lugar, ter em mente de que uma organização de saúde não é uma organização qualquer, pois lida com algo extremamente valioso, que é a vida humana. É preciso ter plena consciência do papel exercido e do impacto das ações na prevenção, cura e restabelecimento da saúde das pessoas. É uma responsabilidade imensa satisfazer as necessidades das pessoas com agilidade, iniciativa, cooperação, solidariedade e humanização.

Em segundo lugar, é preciso fazer uso das ferramentas de gestão disponíveis para equilibrar os custos de uma medicina moderna e altamente especializada. Recomendo fortemente como estratégia a implantação de setores de Qualidade & Processos Institucionais, Viabilidade Técnica & Econômica e Planejamento Estratégico, pois estes são responsáveis pelo mapeamento das ações e condutas, que permitem o melhor uso dos recursos disponíveis e das práticas que favorecem a utilização de inovações terapêuticas e de protocolos assistenciais.

7- Quais têm sido seus atuais desafios à frente ao Grupo São Cristóvão?

O processo de humanização e cuidado na assistência à saúde é um grande desafio e, para tanto, é preciso refletir sobre a realidade dos sistemas de saúde de um modo geral e da particularidade de cada instituição, criando soluções para enfrentar as dificuldades e otimizar as oportunidades.

O Grupo São Cristóvão Saúde tem trabalhado fortemente junto ao seu time a questão da humanização na prestação da assistência dada ao seu cliente, para que se desenvolva um modelo de gestão voltado para a construção de uma nova cultura organizacional. Essa cultura deve ser pautada, sobretudo, pelo respeito, pela solidariedade, pela cidadania e pelo amor no cuidado ao próximo.

8- O Grupo Mídia realiza o prêmio “100 Mais Influentes da Saúde” que terá uma edição especial, homenageando os nomes mais influentes da última década. Qual a sua opinião sobre este tributo às personalidades do setor?

O reconhecimento de expoentes do setor como o Grupo Mídia faz é a recompensa por todo o esforço despendido no desenvolvimento profissional e aprimoramento dos serviços assistencial e administrativo. É a certeza de que estamos no caminho certo. Ser notado pelas ações diferenciadoras que resultam na prestação de serviços de saúde e de excelência é uma imensa satisfação. Contudo, com igual responsabilidade.

É reconfortante saber que temos muitos líderes envolvidos nesse imenso círculo de compromisso. A liderança na saúde exige as características básicas que impõe o setor, tais como a avaliação da complexidade organizacional, a compreensão do caráter específico do cliente atendido, do serviço prestado e da qualidade desse serviço.

9- Quem foi a sua maior influência neste setor?

Meu ex-chefe é minha inspiração: Henry Ford. Com o exemplo dele procuro liderar com autoridade e compaixão, força e suavidade e senso de recompensa.

10- Relembrando a sua trajetória profissional, o sr. faria algo diferente se pudesse voltar no tempo?

As decisões tomadas, certas ou erradas, consideraram o cenário vivido à época. O que de certa forma não saiu da maneira esperada, serviu de aprendizado para novas decisões.

Ping Pong com Valdir Ventura

– uma viagem inesquecível:

Há alguns anos atrás me fizeram esta pergunta e eu relatei uma viagem com a minha esposa e minha filha mais velha à Europa. Ela estava fora há mais de ano, em Milão, fazendo residência em Mastologia. Após o término do seu curso, fizemos um belo tour por vários países. Sem dúvida nenhuma foi um momento inesquecível!

Mas hoje deixo registrada a viagem com a família toda reunida à Disney, em Orlando (EUA), em 2015. Compartilhar a magia daquele lugar com minha esposa, companheira de toda uma vida, filhas, genros e netos foi simplesmente incrível!

– um livro de cabeceira:

O livro que tem lugar cativo na minha cabeceira chama-se Ave Luz, de João Nunes Maia. O livro nos deixa a sensação de que nos reunimos e conversamos com Jesus sobre os temas de nosso cotidiano. Todas as vezes que releio tenho um encontro diferente com Deus e com a minha espiritualidade.

– um exemplo de líder:

Meu pai é e sempre será o meu grande exemplo de liderança. Além de homem visionário e grande empreendedor, com inigualável espírito humanitário. Motivava seus colaboradores principalmente pelo seu exemplo, criava todas as condições para o crescimento individual e coletivo, e era um entusiasta e encorajador do desenvolvimento de atividades acadêmicas e científicas. Além disso, era exemplo de retidão, transparência e na ajuda aos mais necessitados. Era um instrumento provocador de indagações que motivam a nossa busca às respostas e ao conhecimento que nos içam ao crescimento profissional.

– um sonho:

Implantar a Faculdade de Enfermagem, com o objetivo de formar, capacitar e aprimorar nosso corpo de enfermagem, 60% do nosso recurso humano. Esse era um sonho do meu pai. Muito em breve, nosso Instituto de Ensino e Pesquisa, o IEP Dona Cica, que está em fase final de construção, abrigará não só esse sonho, mas também será o celeiro de fomento às atividades acadêmicas e produções científicas.

– família:

É a minha base fundamental. Para mim, significa união, amor e cuidado, mas também inclui sabedoria e muitas noções de convivência. São pessoas que ganhamos de presente e que nos conectamos de modo sublime, forte e indissolúvel. Existe coisa melhor do que a nossa família?

– o que mais gosta de fazer nos momentos de lazer:

Meus momentos de lazer são dedicados à família. Viagens à praia ou ao campo e almoços com todos reunidos à mesa fazem meus momentos de lazer valer a pena. Neste momento, em que vivemos uma grave crise sanitária, isso não está sendo possível. Resta-nos esperar pela vacina e por dias melhores, nos cuidando e cuidando uns aos outros.

– O nosso setor da saúde é:

Complexo, assimétrico, fragmentado, multifatorial e multidisciplinar. Temos uma grande responsabilidade na sustentabilidade deste setor e no desenvolvimento do chamado complexo industrial, de serviços de saúde e de seus impactos socioeconômicos no Brasil. Temos grandes desafios, mas também grandes oportunidades.

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