Um breve resumo sobre empreender na saúde brasileira

Há exatos 9 anos comecei a perceber que o setor de saúde brasileiro, diferentemente do que me fizeram crer no meio acadêmico de medicina, era algo extremamente ineficiente e indigno.

E o que é mais incrível, percebi que esta ineficiência e falta de dignidade não atingem apenas os usuários. Atinge como um gancho de direita a todos os envolvidos na assistência. Sejam médicos, enfermeiros, recepcionistas, vigilantes, e claro, os pacientes.

Esta minha colocação parece um tanto óbvia e juvenil. Mas não é. A verdade é que ninguém percebe isso. Ninguém sequer discute sobre isso, exceto em posts tímidos e eventuais sobre BurnOut ou agressão a médicos e enfermeiros. É extremamente estressante, frustrante, irritante, desgastante e tantos “antes” que pudermos colocar, estar inserido no sistema de saúde como profissional. O usuário tem a percepção e a experiência da falta de qualidade sempre que precisa usar o sistema. Mas o médico e equipes de saúde tem a percepção orgânica, carnal, full time do desastre que vivemos.

Foi diante de tantas frustrações em uma carreira que amo e acredito com o coração que resolvi empreender na saúde brasileira. Primeiro comecei organizando plantões, depois formando equipes médicas, terceirizei serviços especializados, depois coordenei hospitais, evoluí para construção e fundação de hospitais e há 4 anos iniciei minha empreitada em uma rede de clínicas de alta resolutividade, que é o CECAM – Consultas, Exames e Diagnósticos, da qual acabei me desligando em 2018.

O CECAM – Consultas, Exames e Diagnósticos já existia há 18 anos quando surgiu a oportunidade de aquisição. Porém a clínica (se é que podemos chamar assim) estava praticamente inoperante. Era como um senhor de idade fragilizado, caquético e sem condições de locomover-se sozinho. A fragilidade era tão intensa que 4 convênios nos descredenciaram pois achavam que o CECAM não existia mais, visto que há anos não recebiam solicitações de faturamento.

Para encurtar a história: em 6 meses nós elevamos o faturamento em 10 vezes o faturamento inicial. Diversificamos especialidades, passamos a oferecer exames, e estreitamos relação com todas as operadoras de planos de saúde.

Iniciamos 2016 sob a sombra da crise econômica e 2 milhões de a menos de usuários de planos de saúde no Brasil. Além disso enfrentamos a “concorrência” das tais clínicas populares. Vivemos o auge delas e observamos todas as clínicas semelhantes migrando para este segmento.

Mesmo assim tínhamos um planejamento estratégico pronto e muito bem definido para 2016 e, com muita assertividade, empenho, perseverança e porrada (no sentido figurado e literal), conseguimos segui-lo à risca e atingir incríveis taxas de crescimento mensal (acima inclusive das nossas melhores previsões).

Chegamos ao fim de 2016, as clínicas populares mostraram-se, após o furor inicial, não tão atrativas nem tão populares como pareciam ser e o CECAM fecha o balanço com 2 unidades próprias em localidades estratégicas; 1 instituto de cardiologia vinculado à nossa marca e reconhecido mundialmente; uma equipe médica diferenciada, preparada e engajada; uma equipe administrativa totalmente leal e competente; além de 3 clínicas parceiras que prestávamos consultoria mensal em gestão e administração que posteriormente passaram a fazer parte da nossa rede.

Mas voltando ao início do texto, mesmo diante de tantas dificuldades e momentos de vida ou morte, tenho a esperança e acredito na criação de um modelo em que haja um resgate da boa e velha medicina, com valorização, empoderamento, suporte, dignidade e reconhecimento do médico e equipe de saúde. Outro dia li uma pesquisa sobre satisfação nos melhores hospitais privados do Brasil e a média de satisfação do usuário é foi de 59%, variando entre 24 e 87%. Vou repetir: hospitais privados, que fazem parte de uma Associação que só admite hospitais com qualidade reconhecida através de certificação internacional. Ou seja, isso só reforça o quão ineficiente é nosso sistema (público e privado).

Para encerrar, gostaria de iniciar um debate. Nesta empreitada, estive sujeito a uma enxurrada, um dilúvio, um tsunami de péssimos profissionais, péssimas empresas, péssimos prestadores e gente da mais baixa estirpe. São diretores que não tem a mínima experiência. Empresas de software que não entregam o prometido. Operadoras de saúde que não te respeitam, não pagam e não retornam. Faturistas que não faturam e não recorrem das glosas. Telefonistas que não atendem. PABX que não funciona. Bancos que não te dão suporte. Contadores que não entendem nada de contabilidade. Empresas de Marketing que tomam seu dinheiro e somem. Enfim, milhares de situações assim.

Nessa época pensei até em criar uma lista negra dos péssimos profissionais de que atuam no ramo da saúde. Mas no fim acabou nem precisando. Apesar das medidas tomadas pelo governo para estimular a economia, 2017 e 2018 foram anos em que muitos sentiram o resultado da crise em que o Brasil se encontra e o próprio mercado ocupou-se de selecionar os melhores profissionais.

Além disso aprendi que planejamento, metas, cronogramas e avaliação contínua ajudam a identificar e resolver os problemas e ineficiências de maneira mais rápida. Que o Brasil se recupere logo e tenhamos mais empreendedores ajudando a melhorar e trazendo soluções para a saúde brasileira.

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