Humano, demasiado humano, por Henrique Jatene

Então, naquele dia, foi decretado que o hospital já não seria mais humano… E que dia foi esse? Como chegamos até ali? Aqueles espaços, repletos de seres humanos cuidando de outros seres humanos, pensado, construído e operado por seres humanos e mergulhado em atividades, ações e todos os sentimentos produzidos pela humanidade, já não era mais reconhecido e nem se reconhecia como humano. Arrastava-se, inumano ou desumano, e passaria a depender de decretos, programas e manuais para voltar a ser, ou parecer ser, o que nunca poderia deixar de ter sido. Como fotos originais em preto e branco colorizadas por processos artificiais, almejaria ser humanizado.

Não é tão difícil dar uma cara mais humana para um hospital. Emprestemos a hospitalidade da hotelaria; talvez um cardápio melhor. Algumas plantas e flores. Pintemos as paredes, decoremos. Incorporemos alguns elementos de espaços corporativos. Móveis mais vistosos, luminárias parecidas com as da CASACOR. Uniformes bonitos, manual de boas maneiras. Um certo luxo para quem pode pagar, um pouco de diferenciação para os diferentes planos de saúde, um mínimo de dignidade para os sem plano. Pronto; de tão humano que ficamos, nem parece que estamos em um hospital. Atingimos enfim o grande desejo das instituições de saúde: não se parecer com instituições de saúde.

De fora para dentro está resolvido. Falta agora só o principal. Não foi o hospital que deixou de ser humano. Tampouco seu espaço. Diria que arquitetura que se preza é naturalmente humanista, humana e prescinde de apêndices humanizados. O hospital deixou de ser humano quando se entendeu mais importante do que o ser humano que trata.

Deixou de ser humano quando a doença passou a importar e render mais do que a saúde. Quando os requisitos de instalação de equipamentos se tornam prioritários em relação aos requisitos de “instalação” do paciente e de quem o atende. Quando as metas de produção, quantitativas, se sobrepuseram a critérios qualitativos de atendimento. Quando acolher, tratar, cuidar se tornou um favor e não uma obrigação natural.

Quando não havia motivo para dar bom dia, boa tarde ou boa noite. Quando o cliente passou a ser o médico e não seu paciente. Quando um sorriso passou a ser ensaiado, ter custo e fazer parte da fatura. Quando a diferença entre ser ou não humano é medida pelo tipo de plano de saúde e quando a saúde pública é para sub humanos. Quando se mendiga dinheiro para a saúde. Quando se fecham, ou nem se abrem, unidades de saúde por falta, desvio ou mal uso de dinheiro público.

Quando se fecham hospitais privados ou se cortam procedimentos por não serem bons negócio. Quando se fica feliz ao conseguir uma vaga no posto depois de 12 horas na fila. Quando se fica feliz ao ser atendido no convênio numa consulta em que o médico mal olhou na sua cara. Quando um atendimento como todo médico por vocação gostaria de prestar é acessível apenas aos “melhores” humanos. Quando…

Quem deixou de ser humano foi o ser humano. O espaço, como abrigo e espelho de quem o ocupa, apenas tingiu suas paredes nas piores cores possíveis. Bem-aventurados os programas de humanização. Ainda que de fora para dentro, teremos ganhos em todos os sentidos, até fazer a arquitetura não perder sua essência e ver que não adianta espalhar cor, não adianta ambientar, não adianta investir em objetos, acessórios e visuais antes da empatia como premissa verdadeira.

Humanismo é um valor. É intrínseco. Não é possível comprar. Não é possível importar, nem anexar. É possível aparentar com alguns truques de manual, mas isso vai falhar na primeira oportunidade em que precisar ser sustentado por um valor inexistente. Do valor deriva toda a ação que nos torna mais humanos. Recuperemos a humanidade antes que a inteligência artificial o faça.

Este artigo, redigido por Henrique Jatene, faz parte da 30ª edição da revista HealthARQ!

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