A evolução dos espaços de isolamento

Desde a idade média, a preocupação com o isolamento de pessoas contaminadas sempre foi latente; em relação à sociedade em geral, nos tempos idos a preocupação era unicamente a contenção da disseminação de infecções por doentes infectados, por não se conhecer à época métodos de cura.

Haja vista que no ocidente medieval a Igreja Católica, através de seus membros e com apoio da comunidade, acolhia doentes não com o objetivo de cura do corpo, mas com o de salvar suas almas, à mesma medida em que retiravam os infectados da sociedade. Os doentes, portanto, eram isolados por serem portadores de lepra, tuberculose ou outras doenças contagiosas e notoriamente visíveis.

Mais recentemente, no século XIX em São Paulo (1880), foi criado o Hospital do Isolamento, construído nos limites da cidade na época, à oeste, pensado e erguido com o intuito de isolar doentes com doenças como a Varíola e Febre Amarela. O local escolhido foi a Estrada dos Pinheiros, atual Av. Dr. Arnaldo, um ponto onde o vento não soprava em direção ao centro da cidade, próximo ao cemitério.

Nos tempos atuais, os apartamentos de isolamento cumprem outras funções além da de, claramente, isolar os infectados para evitar a disseminação da infecção. Agora há também a preocupação com os fragilizados, que por deficiências imunológicas estão sempre altamente suscetíveis a serem infectados, inclusive por microorganismos que convivem naturalmente com as pessoas sadias em geral.

Assim, os apartamentos de isolamento destinam-se a proteger a equipe médica dos infectados assim como, na medida do possível, proteger os imunodeprimidos da equipe médica. Para tanto, o sistema de HVAC (Heating, Ventilation and Air Condicioning) do apartamento de isolamento deve ser projetado em conformidade à Norma Técnica NBR 7256, que tem como foco o ar condicionado para Centros de Saúde e que, atualmente, encontra-se em processo final de revisão.

Com esta revisão, os apartamentos de isolamento serão mais detalhados, para o melhor entendimento dos projetistas da área de HVAC, na medida em que parâmetros e conceitos serão mais bem identificados, inclusive no que diz respeito a esquemas de fluxo de ar nos apartamentos. Os esquemas de fluxo, inclusive, indicam claramente como deve atuar o sistema de HVAC, com relação às pressões estáticas de cada aposento constituinte do apartamento de isolamento, assim como suas respectivas pressões dinâmicas.

Ou seja, a antessala, por exemplo, deve operar com pressão positiva em relação ao quarto e em relação ao corredor; e o quarto, por sua vez, deve operar com pressão negativa em relação à antessala e positiva em relação ao banheiro. Ainda existem posturas técnicas diferenciadas em relação à pressão dinâmica, e ainda mais entre a direção que o ar tratado deva tomar quando insuflado no quarto e sua direção de exaustão.

Se o ar injetado no quarto passa pela equipe médica e toma a direção da cabeceira da cama, certamente protege a equipe médica de doentes infectados. Mas, se o ar injetado no quarto por sua vez tomar a direção oposta à cabeceira da cama, passando pelo doente infectado, o foco certamente passa a ser a proteção do doente.

Nos projetos da Fundament-AR, sempre que possível utilizamos uma alternativa diferente das propostas, pois ambas expõem a uns enquanto beneficiam a outros e vice versa. Como nossa experiência em projetos hospitalares nos mostra ainda que dificilmente existirá, em um hospital, dois apartamentos de isolamento, nas áreas necessárias e este tipo de apartamento, sendo um destinado à infectados e outro à imunodeprimidos e que, nas circunstâncias do dia a dia, estas escolhas serão feitas corretamente.

Desta forma, optamos sempre por um layout de quarto que possibilite à injeção do ar externo passar independemente por ambos, doente e equipe médica, e tomar por direção um canto do quarto, distante do doente. Com relação às taxas de ar e seus critérios de renovação, o estudo apresentado pelo ASHRAE Journal na edição 61 vol 2 de fevereiro de 2019 – cuja leitura recomendo a quem deseje aprofundar-se neste tema – observa-se que diversos países adotam números distintos entre si. Diferem, ainda, pressão do ar entre ambientes, possibilidade de recirculação do ar e tratamento da antessala.

Lembro que no Brasil, pela ausência de simulações reais, nas instituições de pesquisa, os participantes/voluntários dos comitês da ABNT, instrumentalizam-se pela leitura dos trabalhos, executados no exterior, em geral nos Estados Unidos da América do Norte e ou na Europa.

Apesar da diferença entre si, todas convergem para números muito próximos. E a norma brasileira, em processo final de revisão, adota números seguros para todos os casos. Inclusive por que, no Brasil, não há um centro de pesquisa que avalie efetivamente os números disponibilizados por países desenvolvidos. Finalizo lembrando a importância da filtragem do ar, tanto na injeção quanto na exaustão para o ambiente externo; deve-se, pois, proteger o ambiente externo da descarga de microorganismos patógenos, em especial se houver janelas próximas, seja na horizontal ou na vertical.

Um cuidado fundamental no desenvolvimento de projetos de hospitais existentes, é a verificação do padrão anteriormente adotado, para fachadas de tomada de ar externo e para fachadas de descarga de ar, este item é fundamental no bojo do conceito de proteção a contaminação cruzada hospitalar, particularmente se a descarga ocorre muito próxima ao nível térreo ou mesmo edifícios próximos em frente a descarga do ar dos apartamentos de isolamento.

Se a descarga ocorre muito próxima ao nível térreo deve ser provida uma cascata de filtros, terminando nos filtros HEPA, assim como os ventiladores utilizados devem ser de baixo nível de ruído, preferencialmente com nível de ruído total no ambiente atendido pelo equipamento, da ordem de 40 a 45 dBA e, para tanto, recomendo o uso de motores de múltiplos polos, e uma adequada seleção do ventilador.

Este artigo, redigido pelo Eng. Duilio Terzi, proprietário da Fundament-AR, foi publicado originalmente na edição 30 da revista HealthARQ.

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