Entrevista, Gestão

Inovação na Gestão Pública

Felipe Ost Scherer, sócio-fundador da Innoscience Consultoria em Gestão da Inovação, professor da ESPM e colunista do Portal Exame, fala da importância da gestão da inovação aplicada ao setor público.

A inovação vem ganhandocada vez mais espaço no setor público. As instituições públicas começam a enxergar as possibilidades decorrentes de uma abordagem estruturada de gestão da inovação. Fazer mais por menos, melhorar a qualidade dos serviços prestados e incorporar novas tecnologias que possam democratizar o acesso aos serviços
estão entre os principais motivadores para a inovação.

De acordo com Felipe Ost Scherer, sócio-fundador da Innoscience Consultoria em Gestão da Inovação e professor da ESPM, a crise econômica mundial de 2007 tornou evidente a necessidade de manter o nível do serviço público oferecido com menos recursos. Diversos países organizaram iniciativas de modernização da gestão e aumento de eficiência através da inovação. No Brasil, a inovação entrou de forma mais intensa na agenda dos gestores públicos nos últimos cinco anos.

A INOVAÇÃO COMO UM PROCESSO ABERTO INCENTIVA A
CRIAÇÃO DE REDES DE COLABORAÇÃO E TROCA DE EXPERIÊNCIAS.

Apesar do avanço, ainda há desafios para fazer a inovação acontecer no setor público. Muitos deles estão relacionadas à cultura das organizações, desconhecimento dos métodos e ferramentas adequados, falta de recursos e motivação para projetos de maior grau de novidade. Em entrevista à Cidades do Brasil, Felipe Scherer explica como o serviço público pode se beneficiar com metodologias estruturadas de gestão da inovação.

 

FELIPE OST SCHERER
Sócio-fundador da Innoscience Consultoria
em Gestão da Inovação.
Mestre em Administração de Empresas
pela UFRGS. Consultor empresarial,
palestrante e professor na ESPM/SUL.
Também é mentor de inovação na
Endeavor Brasil. Escreve para o Portal Exame.

O que significa inovar na gestão pública? O que isso implica diretamente e quais os resultados esperados na prática?
Inovação significa implementar novidades que geram benefícios ao público ou atividade que se destina. Diferentemente do setor privado, onde há uma competição entre atores, muitas atividades do setor público são de
competência exclusiva, ou seja, o comparativo é com o próprio serviço até então prestado. Isso traz algumas vantagens como a possibilidade de utilizar com sucesso inovações com menor grau de novidade, mas muito efetivas
como automatização e virtualização de atividades que antes eram executadas de forma manual. A inovação no setor público deve ser centrada no cidadão, ou seja, sempre buscando entregar algo melhor, mais barato, rápido e conveniente para as comunidades.

 

Há diferenças de inovação nos setores privado e público?
Existem diferenças importantes do ponto de vista regulatório que cria condicionantes legais para estabelecer o modelo de gestão. Todas essas diferenças que vão desde o modelo de recrutamento e seleção, política de cargos e salários, estrutura organizacional, flexibilidade e natureza do serviço prestado acabam impactando na abordagem da gestão da inovação.

 

Muitos modelos aplicados no setor privado são replicados em instituições públicas.
Qual sua visão sobre isso?

É preciso separar as diferentes realidades para aplicar as ferramentas de gestão adequadas para cada caso. Existem dimensões nos modelos que são compartilhadas, como por exemplo, a necessidade estabelecer uma estratégia de inovação. Mesmo assim, a racionalidade na tomada de decisão será completamente distinta, ou seja, os direcionadores de inovação devem ser diferentes.

 

Como acelerar a inovação dentro da gestão pública? Como criar uma cultura de inovação?
Penso que não existe uma ação mágica que irá transformar a cultura de uma organização do dia para noite. Esse é um processo de construção baseado na sensibilização das pessoas envolvidas. Alguns elementos são fundamentais para haver consistência nessa transformação, como direcionadores e propósitos claros, lideranças políticas e técnicas
sensibilizadas, pessoas preparadas com as técnicas de gestão adequadas, acompanhamento e gestão de longo prazo.

 

É possível sensibilizar diferentes servidores, em diferentes posições, para essa nova lógica?
É possível sim! Hoje muitas pessoas ficam frustradas no serviço público justamente porque não encontram meios de aplicar suas ideias, desenvolver novas habilidades e envolver-se com novos desafios. As iniciativas de inovação abrem espaço para que esses comportamentos sejam exercitados pelos servidores. As experiências atuais mostram que há um processo gradual de envolvimento das pessoas com a inovação no serviço público. Normalmente um grupo inicial acaba criando bons exemplos que, aos poucos, vão mobilizando outras pessoas. É um processo gradual.

 

Neste sentido, qual a importância das ONGs neste trabalho em parceria com gestores municipais e estaduais?
Hoje é muito difícil pensar inovação de forma isolada, sem envolver outros atores além da gestão pública. O conceito de inovação moderno é baseado na colaboração entre os cidadãos, universidades, ONGs, startups e empresas em geral. A necessidade de multidisciplinaridade e a diversidade de tecnologias existentes faz com que seja impossível que o setor público sozinho domine o estado da arte ou mesmo consiga executar com eficiência tudo.

 

Como romper a burocracia para a implementar projetos no setor? E, qual a importância
das lideranças políticas e técnicas neste sentido?
As lideranças políticas e técnicas definem os temas importantes da gestão pública. São eles que irão determinar as “bandeiras” que  irão guiar os esforços dos servidores e a possibilidade de transformações nos anos que seguirão. Assim, é fundamental que as lideranças percebam a importância da inovação para que toda organização tenha suporte nessas iniciativas.

 

O que são as redes de inovação e como elas podem transformar a gestão pública?
A inovação como um processo aberto incentiva a criação de redes de colaboração e troca de experiências. Diferentemente do setor privado, onde a estratégia é basicamente baseada na competição e exclusividade no
desenvolvimento das soluções, no setor público isso está menos presente. De forma geral, o gestor municipal, estadual ou federal, pode colaborar com outros pois suas soluções de serviços não concorrem com outros
pois as competências são bem definidas baseadas em questões geográficas. Outro município da federação adotar a mesma solução para aumentar a velocidade de um serviço prestado, por exemplo, não diminui a eficiência e os resultados esperados, já que não há concorrência entre eles.

A Innoscience desenvolveu um modelo, com base em estudos comparativos, de inovação do setor público. Você poderia falar mais sobre este modelo?
O modelo do octógono da inovação no setor público é baseado na nossa experiência em gestão da inovação de mais de 10 anos. Estabelecemos 8 dimensões fundamentais que o gestor público precisa criar práticas e ações para ter sucesso em suas iniciativas: diretrizes estratégicas, liderança política e técnica, governança, cultura de inovação, conexão com stakeholders, métricas e ferramentas, processo de inovação e gestão do conhecimento.

 

Pensando em iniciativas nacionais e mundiais, você poderia citar exemplos no Brasil e outros países que estão fazendo diferença?
Existem boas experiências internacionais como o Mind Lab da Dinamarca, Nesta do Reino Unido, iZone em Nova Iorque e La27e Region da França são bons exemplos. No Brasil temos o iGovSP como um dos pioneiros, mas existem vários outras iniciativas interessantes como a Fábrica de Ideias da Anvisa, inovaTCU, Lab Hacker da Câmara dos
Deputados, InovAnac e G’Nova.

 

Para finalizar, quais os principais passos os gestores públicos devem ter em mente para começar a investir em inovação?
O octógono da inovação no setor público ajuda a identificar os passos para iniciar essa jornada. Primeiro é preciso sensibilizar as lideranças para obter apoio na implementação do processo de mudança organizacional.
Após é preciso identificar os desafios que serão solucionados através da inovação e estabelecer as diretrizes estratégicas. Preparar as pessoas que serão envolvidas com as ferramentas de design de serviços e gestão da
inovação. A melhor maneira de começar é realizando um piloto com projetos que possam mostrar o potencial de resultados e então preparar para escalar e ampliar a abrangência da iniciativa.

 

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