O saneamento e a assistência à saúde

”É inegável a importância do saneamento básico para o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Sua presença contribui para a melhoria dos indicadores epidemiológicos e ajuda na redução de casos de doenças infectocontagiosas”, Carlos Vital Tavares Corrêa Lima.

No Brasil, a análise das políticas públicas de saneamento mostra que mais de 100 milhões de brasileiros não contam com coleta ou tratamento de esgoto. Os números oficiais divulgados mais recentemente mostram que apenas 50,3% da população tem acesso a esse tipo de serviço e que metade utiliza medidas alternativas (nem sempre efi­cientes) para lidar com dejetos, o que inclui desde a construção de uma fossa até o despejo direto em rios e córregos.

Esses dados são provenientes de estudo apre­sentado pelo Instituto Trata Brasil, que orga­nizou um ranking desses serviços a partir de informações oficiais. No momento em que o País combate a febre amarela, é peremptório falar de saneamento, pois as informações do próprio Governo confirmam a falta de ações permanentes para correção desse grande pro­blema nacional, com graves consequências para a saúde, sobretudo daqueles com menor renda ou poder aquisitivo.

Desde a sanção da Lei do Saneamento Básico (nº 11.445) em 2007, o índice de cobertura nesta área aumentou 8,3 pontos percentuais em nível nacional, o que corresponde a menos de um ponto percentual por ano. O avanço pode ser considerado ainda muito pequeno, pois não foi suficiente para contribuir de modo efetivo com a diminuição da desigualdade social ou com soluções para os problemas mais comuns e decorrentes da ausência desse tipo de serviço.

É inegável a importância do saneamento básico para o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Sua presença contribui para a melhoria dos indicadores epidemioló­gicos e ajuda na redução do número de casos de doenças infectocontagiosas. Levantamen­to do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que 65% das internações de crianças menores de 10 anos são causadas por doenças decorrentes da fragilidade ou da inexistência de redes de esgoto e água tratada. A ausência desses servi­ços compromete o desempenho escolar, com expectativa sombria sobre o futuro, sem me­lhores ofertas de emprego, trabalho e renda. No estudo do Instituto Trata Brasil ficou evi­dente que o rendimento médio dos que habi­tam em locais desprovidos de saneamento bá­sico é em média 18% inferior em comparação com o dos moradores de áreas atendidas pela coleta de dejetos. Afinal, a falta de saneamen­to é uma porta aberta para o aumento da inci­dência de doenças como diarreia, leptospirose ou dengue, conforme têm atestado a Organi­zação Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O estudo do Instituto aponta os 10 municí­pios do País com melhores e com piores desem­penhos na oferta do acesso à água e ao esgoto. Ao se verificar o perfil epidemiológico dessas localidades, percebe-se, por exemplo, que, no período de 2007 a 2015, os que apresentam performance mais negativa registraram 92.338 internações por diarreia contra 22.746 interna­ções nas que têm destaque positivo.

Nos municípios que enfrentam maior pre­cariedade, a taxa de internação média por diarreia foi de 190 casos para cada grupo de 100 mil habitantes. No extremo positivo, esse índice foi de 68,9. O mesmo comportamento se observa na avaliação dos dados epidemio­lógicos da dengue.

Entre 2007 e 2015, nos 10 municípios de pior desempenho, houve 145.690 pessoas com diagnóstico de dengue, ou seja, três vezes mais do que naqueles com melhor posição nesse ranking (42.977 casos). Situação semelhante ocorre no que se refere ao total de internações (19.102 contra 4.728) e de óbitos por complica­ções geradas por conta dessa doença (149 con­tra 33 casos).

Lamentável conviver com a realidade expres­sa por esses números após uma década da en­trada em vigor da Lei do Saneamento Básico, que prevê a universalização dos serviços de abastecimento de água e de tratamento da rede de esgoto no País.

Trata-se de uma meta nobre e imperativa para diminuição das desigualdades sociais e de desenvolvimento sustentável, o que exige me­didas competentes das três esferas de governo. A norma definiu, inclusive, as competências do Governo Federal, dos estados e dos municípios neste quesito.

Contudo, a distância entre o ideal e o real é enorme, o que exige um esforço coletivo para superá-la. A falta da promoção de mudanças radicais nos investimentos em obras de sa­neamento por parte dos gestores implica em riscos e perigos para os brasileiros, como o Aedes aegypti, responsável pela transmissão da dengue, zika e chikungunya, que conti­nuam presentes no cotidiano da sociedade brasileira, especialmente no meio em que vive a imensa e maior parte do nosso povo carente e totalmente dependente das respon­sabilidades governamentais.

O papel da tecnologia na democracia brasileira

Para o pesquisador da FGV Direito Rio, Fábio Vasconcellos, as novas tecnologias estão reinventando o fazer democrático, com o surgimento de novas e eficazes ferramentas de participação popular.

Os avanços tecnológicos dos últimos anos vêm transfor­mando significativamente o panorama das sociedades democráticas. Estas mudan­ças afetam não somente o modo substancial das relações sociais, mas também o funcio­namento das atuais instituições e estruturas políticas. Para Fábio Vasconcellos, pesquisa­dor da FGV Direito Rio, o que deve ser discu­tido, segundo ele, é a forma como a internet é utilizada e monitorada no que diz respeito à coleta de informações relevantes para a to­mada de ações.

“A internet tem sido um espaço de amplo debate, o que é bom para a democracia. O problema é que o debate está muito polari­zado. Os grupos opostos estão em evidência. Isso é ruim, pois eles não têm interesse em dialogar. Os moderados devem voltar às dis­cussões”, ressalta Fábio Vasconcellos.

O pesquisador da FGV Direito Rio acre­dita que esse é um momento de transição. Segundo ele, passamos por um momento pedagógico do uso das mídias sociais. “As novas tecnologias estão reinventando o fazer democrático, com o surgimento de novas e eficazes ferramentas de participação popular, inclusive no que diz respeito à possibilidade de o cidadão colaborar com o Poder Público e acompanhar suas ações, com a transparência sem precedentes proporcionada, sobretudo, pela internet”, ressalta o especialista.

Fábio Vasconcellos adverte, no entanto, que há um otimismo exagerado que a tecnologia da informação vai solucionar todos os pro­blemas da descrença nas instituições. Porém, o pesquisador da FGV, alerta que há também pessimismo, em especial, sobre o que poderá ser da democracia cada vez mais digital em um futuro próximo.

“A transparência é algo interessante. Quanto mais você combate a corrupção mais você gera descrença. É um contrassenso que para ser re­solvido precisa de investimento em educação. Devemos debater, desde os níveis fundamen­tais da escola até a graduação, o que é demo­cracia, política e direitos”, explica o especialista.

Eleições de 2018

Fábio Vasconcellos acredita que a campa­nha eleitoral deste ano terá o seguinte cenário: maior uso das redes sociais pelos candidatos; crise dos meios tradicionais de comunicação; descrença generalizada; discurso político ra­dicalizado e atores tradicionais abatidos pela crise iniciada desde 2014.

“Algumas plataformas estão tentando res­tringir informações, mas esse não é o melhor modelo. Informação é um elemento funda­mental para tomarmos decisões. O ponto focal é qual e de que maneira para que prevaleça a democracia”, conclui Fábio Vasconcellos.

100 Melhores Cidades do Brasil

O que as 100 melhores cidades do Brasil têm em comum? Quais fatores são determinantes para o bom desempenho da gestão pública? Para responder estas questões, a Macroplan – consultoria especializada em administração estratégica – comparou as 100 maiores cidades do Brasil (população acima de 266 mil) usando um índice que agrega 16 indicadores nas áreas de educação, saúde, segurança e saneamento.

Esses indicadoresreceberam diferentes pesos: 35,3% para educação e cultura; 35,3% para saúde; 20,6% para infraestrutura e sustentabilidade e 8,8% para segurança. Com isso, o ranking das 100 melhores cidades, analisados no período de uma década, foi formado por um índice que vai de 0 a 1, em que quanto mais próximo de 1, melhor é a condição devida nessa cidade.

O estudo Desafios da Gestão Municipal (DGM) mostrou que as cem cidades mais populosas do país representam
39% da população brasileira, produzem 50% do PIB (Produto Interno Bruto) e respondem por 54% dos empregos
formais do país. A região Sudeste é a que concentra a maior parte delas: 49 municípios, sendo 8 deles entre os dez melhores ranqueados.

De acordo com o levantamento da Macroplan, Maringá (PR) é a melhor cidade grande do País. A cidade subiu no ranking, assim como os outros cinco municípios que aparecem no topo do estudo: Piracicaba, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Franca e Campinas. Do ranking das dez primeiras, oito estão no estado de São Paulo. Apenas
Maringá e Curitiba quebram essa hegemonia. Por outro lado, Ananindeua (PA), Belford Roxo (RJ) e Macapá (AP) estão entre os piores resultados entre as 100 maiores.

Adriana Fontes, economista sênior e coordenadora do núcleo de estudos da Macroplan, explica que a análise, que trabalhou com dados de 2015 (os mais recentes disponíveis), mostrou que há avanços nos indicadores do grupo das 100 maiores cidades em várias áreas, porém ainda são tímidos face aos desafios e com risco de retrocesso no atual contexto de crise, como tem ocorrido sobretudo na área de segurança. “Além disso, o estudo através do indicador sintético mostra situações e trajetórias muito distintas entre as cidades com destaque para três questões”, explica.

Disparidades regionais
Em primeiro lugar, as disparidades regionais. Os resultados confirmam as abismais disparidades entre as regiões do país: os municípios do Sul e do Sudeste dominam as 25 primeiras colocações do índice geral. Entre os 25 últimos, predominam representantes do Norte, Nordeste e da periferia da região metropolitana do Rio de Janeiro. Em segundo lugar, o desempenho das cidades médias. Quatro das cinco melhores do ranking são cidades com até 500 mil habitantes: Maringá-PR, Piracicaba-SP, São José do Rio Preto-SP e Franca-SP. Além disso, as cidades médias foram as que registraram as maiores variações positivas no ranking.

Em terceiro lugar, destaca-se o desempenho positivo de São Paulo. Das 10 primeiras colocadas no ranking, 8 estão em São Paulo. Entre as 15 melhores posições, o Estado contribui com 12 cidades. “O desempenho dos municípios está relacionado a uma série de fatores históricos, socio e conômicos e relacionados à gestão pública. Em geral, a conquista de bons resultados, no médio e longo prazos, está relacionado à continuidade de políticas públicas eficazes, independente dos ciclos políticos e, ainda, de responsabilidade fiscal”, explica a economista.

Desafios atuais
De acordo com Adriana Fontes, os governos convivem com acentuada escassez de recursos e pressões sociais para fazer mais e melhor, além da exigência de mais transparência na prestação de contas. Com o aumento da escolaridade e maior acesso à informação, as pressões por parte da população tendem a aumentar.

“A percepção geral é que os recursos são mal utilizados e não são compatíveis com os impostos cobrados. A sociedade espera mais dos governantes e demanda melhores serviços públicos, hoje com elevadas carências e com risco de degradação. O desafio central é atender as demandas da população com restrições de recursos em um cenário econômico e político de instabilidade, com elevado desemprego e, portanto, maior pressão sobre os serviços públicos. O primeiro ano de governo acabou e o momento de ‘arrumação da casa’ passou, agora o foco deve ser na entrega de melhores serviços para a população, com criatividade, parceria com o setor privado e maior produtividade”, defende.

Para isso, é preciso ter um planejamento focado no desenvolvimento de médio e longo prazos para a cidade, buscando o envolvimento da sociedade, e com estratégias integradas e territorializadas. Para enfrentar tamanho
desafio é fundamental trabalhar em parceria com os outros níveis de governo, com o setor privado e com a sociedade civil para mobilizar recursos e competências.

“Dadas as restrições orçamentárias atuais é preciso ter foco e direcionar os esforços e recursos para ações que produzam resultado para a melhoria da qualidade de vida da população e aumento da competitividade. Para isso, monitoramento, avaliação e mapeamento de experiências exitosas são imprescindíveis”, ressalta Adriana. A estagnação econômica impõe limites ao crescimento das receitas que precisam ser respeitados pelo lado da despesa. Mas não se trata apenas de aumentar a receita e reduzir despesas.

“É preciso dar maior importância à qualidade e à produtividade do conjunto de políticas. Há um espaço menor para ineficiências na gestão e desperdícios de recursos. O estudo traz indícios de ineficiências na gestão por meio da comparação das trajetórias divergentes e dos descompassos entre gastos e resultados analisados. Há, por exemplo, municípios que gastam o dobro por aluno do Ensino Fundamental e têm um resultado inferior no IDEB”.

Principais déficits
O levantamento da Macroplan mostrou que ainda há déficits evidentes em várias áreas. Na área de saúde, por exemplo, mais de 80% dos municípios têm taxa de mortalidade infantil superior a 10 por mil nascidos vivos, nível,
contudo, aceitável pela Organização Mundial da Saúde. Na Educação, dois terços dos municípios não haviam alcançado, em 2015, no IDEB do Ensino Fundamental I público o nível equivalente à média da OCDE em 2003.

Na segurança, todas as cidades têm índices mais elevados que a média da OCDE (4,1 por 100 mil habitantes). Algumas áreas são mais sensíveis a ações de curto prazo enquanto outras demoram mais a reagir. Importante é ter um planejamento que combine ações efetivas e eficazes de curto, médio e longo prazos e monitorar o impacto dessas ações. Há casos de municípios que estavam entre os 10 piores no ranking, em 2005, e passaram a figurar entre os 50 melhores, em 2015.

“Ainda existem muitas demandas não atendidas em áreas importantes, principalmente educação e saúde. Reduzir a oferta e/ou degradar ainda mais a qualidade, sob o argumento de recursos escassos, terá impacto oposto à expectativa da avaliação da população”, ressalta a economista.

Fazer diferente
Maringá, no Paraná, foi a primeira colocada no ranking do IDGM 2017. Com pouco mais de 400 mil habitantes, a cidade se posiciona melhor em saneamento e saúde, com uma taxa de mortalidade infantil abaixo de 10 por
1000/nascidos vivos e a 5ª maior cobertura do pré-natal. Mas a cidade possui também o maior IDEB do Ensino Fundamental I, com 7,1 da rede pública. “Foi a cidade que mais avançou neste indicador na última década.

Agenda de prioridades
“Produtividade dos gastos públicos, projetos no setor de educação e governança compartilhada com a sociedade devem ser prioridades”

E esses avanços parecem ter sido alcançados com melhor uso de recursos, uma vez que a cidade possui o melhor resultado de gasto por aluno do Ensino Fundamental I”, avalia Adriana Fontes. Entre as prioridades que devem estar no topo da agenda dos prefeitos destacam-se o aumento da produtividade dos gastos públicos (produzir mais com os mesmos recursos), priorizar os projetos no setor de educação e ter uma governança compartilhada com a sociedade.

“Fazer diferente requer o uso intensivo de tecnologias, o estabelecimento de parcerias com outros entes da Federação e com o setor privado e maior direcionamento de recursos para as áreas finalistas com real impacto sobre a qualidade de vida da população”, conclui a economista.

Inovação na Gestão Pública

Felipe Ost Scherer, sócio-fundador da Innoscience Consultoria em Gestão da Inovação, professor da ESPM e colunista do Portal Exame, fala da importância da gestão da inovação aplicada ao setor público.

A inovação vem ganhandocada vez mais espaço no setor público. As instituições públicas começam a enxergar as possibilidades decorrentes de uma abordagem estruturada de gestão da inovação. Fazer mais por menos, melhorar a qualidade dos serviços prestados e incorporar novas tecnologias que possam democratizar o acesso aos serviços
estão entre os principais motivadores para a inovação.

De acordo com Felipe Ost Scherer, sócio-fundador da Innoscience Consultoria em Gestão da Inovação e professor da ESPM, a crise econômica mundial de 2007 tornou evidente a necessidade de manter o nível do serviço público oferecido com menos recursos. Diversos países organizaram iniciativas de modernização da gestão e aumento de eficiência através da inovação. No Brasil, a inovação entrou de forma mais intensa na agenda dos gestores públicos nos últimos cinco anos.

A INOVAÇÃO COMO UM PROCESSO ABERTO INCENTIVA A
CRIAÇÃO DE REDES DE COLABORAÇÃO E TROCA DE EXPERIÊNCIAS.

Apesar do avanço, ainda há desafios para fazer a inovação acontecer no setor público. Muitos deles estão relacionadas à cultura das organizações, desconhecimento dos métodos e ferramentas adequados, falta de recursos e motivação para projetos de maior grau de novidade. Em entrevista à Cidades do Brasil, Felipe Scherer explica como o serviço público pode se beneficiar com metodologias estruturadas de gestão da inovação.

 

FELIPE OST SCHERER
Sócio-fundador da Innoscience Consultoria
em Gestão da Inovação.
Mestre em Administração de Empresas
pela UFRGS. Consultor empresarial,
palestrante e professor na ESPM/SUL.
Também é mentor de inovação na
Endeavor Brasil. Escreve para o Portal Exame.

O que significa inovar na gestão pública? O que isso implica diretamente e quais os resultados esperados na prática?
Inovação significa implementar novidades que geram benefícios ao público ou atividade que se destina. Diferentemente do setor privado, onde há uma competição entre atores, muitas atividades do setor público são de
competência exclusiva, ou seja, o comparativo é com o próprio serviço até então prestado. Isso traz algumas vantagens como a possibilidade de utilizar com sucesso inovações com menor grau de novidade, mas muito efetivas
como automatização e virtualização de atividades que antes eram executadas de forma manual. A inovação no setor público deve ser centrada no cidadão, ou seja, sempre buscando entregar algo melhor, mais barato, rápido e conveniente para as comunidades.

 

Há diferenças de inovação nos setores privado e público?
Existem diferenças importantes do ponto de vista regulatório que cria condicionantes legais para estabelecer o modelo de gestão. Todas essas diferenças que vão desde o modelo de recrutamento e seleção, política de cargos e salários, estrutura organizacional, flexibilidade e natureza do serviço prestado acabam impactando na abordagem da gestão da inovação.

 

Muitos modelos aplicados no setor privado são replicados em instituições públicas.
Qual sua visão sobre isso?

É preciso separar as diferentes realidades para aplicar as ferramentas de gestão adequadas para cada caso. Existem dimensões nos modelos que são compartilhadas, como por exemplo, a necessidade estabelecer uma estratégia de inovação. Mesmo assim, a racionalidade na tomada de decisão será completamente distinta, ou seja, os direcionadores de inovação devem ser diferentes.

 

Como acelerar a inovação dentro da gestão pública? Como criar uma cultura de inovação?
Penso que não existe uma ação mágica que irá transformar a cultura de uma organização do dia para noite. Esse é um processo de construção baseado na sensibilização das pessoas envolvidas. Alguns elementos são fundamentais para haver consistência nessa transformação, como direcionadores e propósitos claros, lideranças políticas e técnicas
sensibilizadas, pessoas preparadas com as técnicas de gestão adequadas, acompanhamento e gestão de longo prazo.

 

É possível sensibilizar diferentes servidores, em diferentes posições, para essa nova lógica?
É possível sim! Hoje muitas pessoas ficam frustradas no serviço público justamente porque não encontram meios de aplicar suas ideias, desenvolver novas habilidades e envolver-se com novos desafios. As iniciativas de inovação abrem espaço para que esses comportamentos sejam exercitados pelos servidores. As experiências atuais mostram que há um processo gradual de envolvimento das pessoas com a inovação no serviço público. Normalmente um grupo inicial acaba criando bons exemplos que, aos poucos, vão mobilizando outras pessoas. É um processo gradual.

 

Neste sentido, qual a importância das ONGs neste trabalho em parceria com gestores municipais e estaduais?
Hoje é muito difícil pensar inovação de forma isolada, sem envolver outros atores além da gestão pública. O conceito de inovação moderno é baseado na colaboração entre os cidadãos, universidades, ONGs, startups e empresas em geral. A necessidade de multidisciplinaridade e a diversidade de tecnologias existentes faz com que seja impossível que o setor público sozinho domine o estado da arte ou mesmo consiga executar com eficiência tudo.

 

Como romper a burocracia para a implementar projetos no setor? E, qual a importância
das lideranças políticas e técnicas neste sentido?
As lideranças políticas e técnicas definem os temas importantes da gestão pública. São eles que irão determinar as “bandeiras” que  irão guiar os esforços dos servidores e a possibilidade de transformações nos anos que seguirão. Assim, é fundamental que as lideranças percebam a importância da inovação para que toda organização tenha suporte nessas iniciativas.

 

O que são as redes de inovação e como elas podem transformar a gestão pública?
A inovação como um processo aberto incentiva a criação de redes de colaboração e troca de experiências. Diferentemente do setor privado, onde a estratégia é basicamente baseada na competição e exclusividade no
desenvolvimento das soluções, no setor público isso está menos presente. De forma geral, o gestor municipal, estadual ou federal, pode colaborar com outros pois suas soluções de serviços não concorrem com outros
pois as competências são bem definidas baseadas em questões geográficas. Outro município da federação adotar a mesma solução para aumentar a velocidade de um serviço prestado, por exemplo, não diminui a eficiência e os resultados esperados, já que não há concorrência entre eles.

A Innoscience desenvolveu um modelo, com base em estudos comparativos, de inovação do setor público. Você poderia falar mais sobre este modelo?
O modelo do octógono da inovação no setor público é baseado na nossa experiência em gestão da inovação de mais de 10 anos. Estabelecemos 8 dimensões fundamentais que o gestor público precisa criar práticas e ações para ter sucesso em suas iniciativas: diretrizes estratégicas, liderança política e técnica, governança, cultura de inovação, conexão com stakeholders, métricas e ferramentas, processo de inovação e gestão do conhecimento.

 

Pensando em iniciativas nacionais e mundiais, você poderia citar exemplos no Brasil e outros países que estão fazendo diferença?
Existem boas experiências internacionais como o Mind Lab da Dinamarca, Nesta do Reino Unido, iZone em Nova Iorque e La27e Region da França são bons exemplos. No Brasil temos o iGovSP como um dos pioneiros, mas existem vários outras iniciativas interessantes como a Fábrica de Ideias da Anvisa, inovaTCU, Lab Hacker da Câmara dos
Deputados, InovAnac e G’Nova.

 

Para finalizar, quais os principais passos os gestores públicos devem ter em mente para começar a investir em inovação?
O octógono da inovação no setor público ajuda a identificar os passos para iniciar essa jornada. Primeiro é preciso sensibilizar as lideranças para obter apoio na implementação do processo de mudança organizacional.
Após é preciso identificar os desafios que serão solucionados através da inovação e estabelecer as diretrizes estratégicas. Preparar as pessoas que serão envolvidas com as ferramentas de design de serviços e gestão da
inovação. A melhor maneira de começar é realizando um piloto com projetos que possam mostrar o potencial de resultados e então preparar para escalar e ampliar a abrangência da iniciativa.

 

Pela Modernização das Cidades

A busca pela modernização das cidades, com destaque ao abastecimento de água e às redes de esgoto, gera um impacto direto na saúde e no desenvolvimento de uma vida mais digna, com mais possibilidades a todos.

Por Alexandre Baldy

A Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad) contínua, realizada pelo IBGE, apresenta, em seus dados de 2016, um conjunto de informações que evidenciam a urgência que o cidadão brasileiro tem sobre o acesso a uma habitação segura, saudável e sustentável. Os dados servem como bússola para a atuação de qualquer gestão que queira modernizar e otimizar a vida do brasileiro. Destaco alguns dados preocupantes: 34% dos brasileiros moram em casas sem qualquer forma de esgoto.

Dos 66% que têm acesso, 30% ainda usam fossa sem ligação à rede apropriada de esgoto. Os dados ficam mais alarmantes quando regionalizamos as informações: na região
Sul, 89% das famílias têm esgoto tratado; já na região Norte, são apenas 19%. O Brasil convive também com desafios quanto ao abastecimento de água: 3,5 milhões de famílias recebem água tratada em suas torneiras, no máximo, três vezes por semana, sendo que centenas de milhares passam semanas sem receber nem uma gota de água sequer.

Poderíamos destacar uma série de outras informações, mas uma delas, em especial, nos chama  atenção: 93% das casas têm pelo menos um aparelho celular. Em 1997, seria impossível imaginar que o celular estaria presente praticamente em todas as casas. No entanto, em 2017, a despeito desse avanço do acesso tecnológico,
parece impossível levar água tratada e garantir rede de esgoto em todo o país. Assumimos o Ministério das Cidades com uma série de desafios para promovermos o desenvolvimento do Brasil, mas afirmo que um deles deve ser prioritário e está longe de ser “impossível”: garantir a cada brasileiro condições de moradia saudável, sustentável,
segura e com dignidade.

MINISTRO DAS CIDADES
Alexandre Baldy
tomou posse como ministro
das Cidades em novembro de 2017

Queremos aplicar os recursos e a capacidade de intervenção do Ministério das Cidades para proporcionar ao cidadão que vive nas cidades o direito ao acesso das condições básicas de saúde pública estrutural. A busca pela modernização das cidades, com destaque ao abastecimento de água e às redes de esgoto, gera um impacto direto
na saúde e no desenvolvimento de uma vida mais digna, com mais possibilidades a todos. Este é um compromisso assumido no momento de minha posse e cujo trabalho já foi iniciado. Há quem aposte que não haverá tempo
para realizar em 14 meses.

Mas é preciso agir na gestão da pasta para além desse período. Meu objetivo é planejar e executar ações que criem as bases estruturantes para um trabalho que tenha impacto ao longo de 30 anos. Se não começarmos, nunca terminaremos. É preciso enfrentar desafios históricos brasileiros que passam de governo em governo
por meio de um planejamento e um compromisso real com transformação social.

E a melhor forma de iniciar esse trabalho é criando um ambiente melhor, mais saudável e seguro, na casa das pessoas. Temos os dados, temos a bússola e tenham certeza de que, na minha gestão, terei um compromisso inabalável com o futuro. As ações e projetos devem perdurar como uma política de Estado em constante atualização e esforço dos agentes participantes.

Quero dar a minha contribuição na gestão pública, entendendo que cada um deixou a sua contribuição, facilitando o trabalho do próximo que vier. Nessa corrida de revezamento por mais cidadania, mais saúde, mais infraestrutura nas
cidades, é preciso saber conduzir o bastão, mas é fundamental saber passá-lo melhor do que o recebeu.

E este é o desafio ao qual eu me lanço agora.