O Papel do Administrador no Mercado de Saúde
O Papel do Administrador no Mercado de Saúde

 

Uma visão dos setores público, privado e filantrópico.

As mudanças de perfil e da prática do Administrador Hospitalar frente às recentes perspectivas conjunturais do mercado de saúde contribuem para a emergência de novos conceitos em administração nas instituições hospitalares.

A expansão de serviços de saúde, a gestão público-privada, a terceirização, o atendimento domiciliar e outros serviços exigem que a formação de novos profissionais seja direcionada e atualizada. Os desafios estão voltadospara a continuidade dos futuros gestores, que estão se profi ssionalizando para atender uma demanda específica para cada segmento da área de saúde.

João Sabino (Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos), Wilson Pollara (Hospital das Clínicas da FMUSP) e José Henrique Germann (Hospital Albert Einstein) retratam o importante papel do administrador no mercado de saúde e seus principais desafios.

O ADMINISTRADOR HOSPITALAR DO SETOR PÚBLICO

“O administrador público tem de fazer mais com menos”. Vivendo essa experiência há 45 anos, o Prof. Dr. Wilson Pollara, Diretor Executivo do Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP, administra um dos maiores e mais conceituados complexos hospitalares do Brasil. Segundo o gestor, há um crescente nivelamento entre o atendimento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e os planos privados.

Diante deste cenário, Pollara defende uma visão cada vez mais estratégica à gestão pública, orientada para qualidade e excelência da gestão. “No setor privado, o administrador pensa em agregar valor ao produto para conseguir um preço melhor.

No setor público, o administrador tem um orçamento fixo, e, deve diminuir custos pra conseguir fazer cada vez mais com menos dinheiro”. Apesar das diferenças estruturais entre os segmentos, o setor público vem adotando ferramentas consagradas pelo setor privado. “É preciso que o administrador pense nas ferramentas relativas ao acompanhamento da qualidade.

Falta ao setor público aquele modo de enxergar do hospital privado, de economia, de eficiência, de indicadores, de acreditação”, conta. Além da visão estratégica, Wilson Pollara cita como fator fundamental ao administrador hospitalar do setor público o networking político – interno e externo.

“O profissional deve ter influência política, caso contrário não conseguirá nada porque tudo depende do secretário, do prefeito, da verba do ministério, etc. Não só deve ter influência política como também tem de conhecer os caminhos pelos quais os recursos chegam.

Se ele não souber, por exemplo, sobre um programa especial do Ministério da Saúde para Emergência, ele nunca terá aquele recurso para a emergência. É fundamental que ele esteja muito bem informado dos recursos disponíveis porque é um fator dinâmico, que muda a toda hora”, garante. Como se consegue um profissional com um perfil tão dinâmico quanto este?

O Diretor Executivo do Instituto Central aposta na formação dentro do próprio hospital público. “Não existe esse profissional pronto. Ele vai se estruturando conforme passa a viver àquele cargo. Formando-se dentro do serviço público, ele já conhece a realidade, já passou pelas dificuldades que o serviço enfrenta e sabe lidar mais facilmente com as situações”, garante.

Como Faculdade de Medicina, o Hospital das Clínicas também tem empenhado esforços para formar uma nova geração de administradores hospitalares. “Temos um programa em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, chamado PROAHSA, que visa a formação de administradores hospitalares.

Se você tem uma fila na sua porta, alguma coisa está errada. O paciente precisa ser encaminhado ao serviço que realmente precisa e não, apenas, no serviço referenciado”, explica. A judicialização da saúde também preocupa. “Esta questão para o gestor público é terrível.

Somos obrigados a comprar remédios caríssimos que não estão indicados para aquele caso, mas, o juiz determinou. Aqui no HC, temos uma despesa mensal muito grande por conta da judicialização e sofremos nesta questão como todos os outros hospitais.

Gastamos mensalmente cerca de R$ 1,5 milhão com as ordens judiciais”, lamenta. Entre as soluções, o administrador aposta num maior diálogo com o Poder Judiciário e na implantação de Câmaras Técnicas.

“Essa decisão não pode ficar exclusivamente na mão do juiz, nem da do médico. Temos de formar câmaras técnicas, onde teremos um especialista, um diretor de hospital, um fornecedor, pra que todos discutam o caso. O juiz não pode sozinho tomar a decisão, ele tem de estar assessorado”, acredita o diretor.

Para Pollara, outro ponto fundamental é a remuneração médica. “O médico hoje é remunerado pelo evento indesejado. É como se você tivesse uma empresa de segurança, e, só ser remunerado se pegar algum bandido. Ele fica girando nessa equação de fazer consulta, fazer cirurgia, pedir exame para poder ser remunerado.

O médico tem de ser remunerado independente da produção que tem”. Segundo ele, o fee for service (pagamento por serviço) é a pior forma de pagamento tanto para o médico, quanto para o hospital. “Um exemplo disso é que 96% dos exames laboratoriais têm resultado normal. Esse desperdício é reflexo da forma de pagamento.

Não existe um protocolo que oriente como deve ser feito. Faltam ainda diretrizes para o setor público. O médico deveria seguir protocolos de atendimento. Se tudo estivesse orientado pela Medicina Baseada em Evidências, teríamos uma economia e eficiência muito grandes. Quando começarmos a trocar experiência com o outro e compartilhar influências e experiências, é desse compartilhamento que sairá a melhor prática”, conclui.

ESTUDOS AVANÇADOS EM ADMINISTRAÇÃO HOSPITALAR O PROAHSA

Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde, é formado a partir de um convênio entre o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Os principais objetivos deste programa são: desenvolvimento de programas de ensino, pesquisa, preparação de publicações e assistência técnica, no campo da Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde. Entre os principais programas de ensino encontramos: – Residência Médica em Administração em Saúde – Aprimoramento Profissional em Administração em Saúde.

O ADMINISTRADOR HOSPITALAR DO SETOR PRIVADO

A atuação do Administrador Hospitalar vem passando por grandes transformações.

A principal mudança no setor privado ocorre em razão de uma competitividade cada vez mais acirrada. De acordo com João Sabino, Diretor Executivo do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos, é preciso que o profissional esteja atento aos movimentos e tendências do segmento.

Em outras palavras, é preciso transformar as oportunidades em geração de grandes negócios. “Embora possa soar estranho, o Administrador Hospitalar é na sua essência o gestor de um grande negócio, onde temos como obrigação buscar sempre os melhores resultados para a sustentabilidade e manutenção da nossa instituição”, ressalta.

Para o Administrador Hospitalar que atua no segmento privado o desafio diário é manter uma gestão ética, fazendo com que todos estejam engajados com uma visão empreendedora, oferecendo aos clientes um atendimento diferenciado e de alta qualidade. “A competitividade do mercado acaba sendo a grande mola propulsora da atual mudança que observamos em nossos dias.

Houve a necessidade de uma ação inovadora na gestão, com o objetivo de potencializar a performance e aumentar os resultados operacionais e de processos”, explica. Nem sempre isso é uma tarefa fácil. De acordo com o executivo, o profissional da área de gestão em saúde, assim como em qualquer outra profissão, sai dos bancos acadêmicos com uma grande visão teórica, porém é no campo prático que encontrará a têmpera necessária para alcançar os melhores resultados.

“No Brasil, principalmente nos grandes centros, estamos percebendo uma profissionalização na gestão da saúde, observada nitidamente nos grandes Complexos Hospitalares, gerando uma melhora significativa e uma preocupação qualitativa na oferta dos melhores serviços à sua clientela”.

Sabino explica que o atual momento da Gestão Hospitalar no Brasil, principalmente levando em consideração os hospitais privados, cumpre o seu papel de transformar a gestão hospitalar em uma administração profissionalizada, com visão de Sustentabilidade e Expansão em grandes redes, com visão de abrangência regional e até mesmo nacional. “Não cabe mais no segmento de Saúde fazer uma gestão por afinidade ou simplesmente por laços familiares, sem que haja o conhecimento técnico e científico.

Na gestão da saúde, para que se apresentem bons resultados, muitas vezes necessitamos que sejam adotadas medidas que nem sempre agradam a maioria dos envolvidos”, ressalta. Para o executivo, esse cenário de mudança vem sendo corroborado pelos processos de Certificação de aferição da Qualidade por Institutos Nacionais e Internacionais. “Estamos caminhando para um processo de Excelência na prestação de Serviços e Resultados, também na área da Saúde”.

GESTÃO EFICAZ DOS CUSTOS

Como em qualquer ramo de atividade de negócio, é fundamental que o gestor tenha em mente o controle eficiente dos custos.

“Devemos adquirir bem os nossos produtos e oferecermos em condições melhores ainda os nossos serviços”, ressalta. Para ele, nos grandes centros este processo parece bem consolidado em função da grande diversidade de fornecedores de produtos do segmento, porém é necessário dar essa mesma atenção às regiões desprovidas de abundância de ofertas.

“Principalmente visto que nestas regiões a clientela é em menor quantidade, no entanto não menos exigentes e cientes dos seus direitos básicos”. Em sua visão, o Gestor Hospitalar tem a obrigação de vivenciar a sua gestão com dedicação de forma integral.

“Temos que respirar esta gestão durante as 24 horas do dia, sete dias por semana, assim como é por essência a atividade hospitalar, estar presente o tempo todo partilhando suas ideias e crenças. Os grandes desafios enfrentados diariamente pelo gestor concentram-se em manter uma atividade harmoniosa, pois temos uma cadeia enorme de profissionais voltados para oferecer a melhor prestação de serviços aos nossos clientes”, lembra João Sabino.

É preciso, lembra o executivo, minimizar custos e potencializar resultados de modo a equacionar as bases contratuais pactuadas com os tomadores de serviços. “Estamos inseridos em uma grande rede de credenciados à disposição dos segurados. Considerando as mudanças e o cenário econômico pelo qual nosso país vem atravessando, o grande desafio ainda a ser perseguido, para os gestores hospitalares, consiste em encontrar o seu ponto de equilíbrio na Sustentabilidade do negócio, frente à competitividade mercadológica”, conclui o executivo.

O ADMINISTRADOR HOSPITALAR DO SETOR FILANTRÓPICO

Com um segmento em constante mudança, as necessidades dos pacientes e profissionais sofrem modificações ao longo do tempo. A consequência é que o próprio hospital, seus investimentos e sua gestão devem acompanhar este processo evolutivo. Para José Henrique Germann Ferreira, Diretor Superintendente do Instituto Israelita de consultoria e Gestão do Hospital Albert Einstein, o papel do administrador hospitalar que atua no setor filantrópico tem os mesmos desafios e outros mais, onde a máxima é sempre fazer mais com menos.

Para o executivo, o principal deles é pensar o mais globalmente possível. “Para tanto, o profissional deve se valer das ferramentas clássicas de planejamento, orçamento, determinação de objetivos, busca de resultados e alcance de metas e principalmente gestão de pessoas”, explica.

Não é só o perfil do mercado que tem se alterado. Germann acredita que o grau de profissionalização do administrador hospitalar vem se alterando ao longo do tempo, com maior especialização e dedicação exclusiva à atividade administrativa. “O país tem dimensões continentais e isto causa distorções em todos os segmentos, com a formação de profissionais dos mais variados e distintos graus de competência. É fundamental para o Administrador Hospitalar uma formação sólida, com aderência aos princípios da ética, da ética médica e da justiça social.

A partir daí se desenvolvem os demais preceitos da sustentabilidade e da gestão em busca da perenidade institucional”, garante. O envelhecimento da população e o avanço tecnológico geram custos progressivos e crescentes no âmbito da atenção à saúde. “O maior desafio para o futuro próximo será como adequar novos custos e novas necessidades sem alterar o equilíbrio e a sustentabilidade do sistema”, conclui.

“É fundamental para o Administrador Hospitalar uma formação sólida, com aderência aos princípios da ética, da ética médica e da justiça social.
A partir daí se desenvolvem os demais preceitos da sustentabilidade e da gestão em busca da perenidade institucional”

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