Integração entre Administração e Arquitetura Hospitalar
Integração entre Administração e Arquitetura Hospitalar

 

Em agosto de 2014, a cidade de Florianópolis sediou o mais importante evento brasileiro sobre edificações hospitalares. Organizado pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar (ABDEH), o VI CBDEH mobilizou profissionais, pesquisadores e interessados na excelência dos ambientes de saúde, além ter sido palco para a posse do novo presidente da entidade para o triênio 2014-2017. Quem assumiu o desafio é o Prof. Arq. Marcio Nascimento de Oliveira, consultor do Ministério da Saúde e atual diretor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Brasília. Em entrevista, o novo presidente da ABDEH fala dos conceitos de excelência nos ambientes de saúde e sobre a fundamental integração entre as áreas administrativa, engenharia e arquitetura hospitalar.

Como o senhor avalia atualmente a integração entre as áreas da Administração e Arquitetura Hospitalar? Qual o impacto para o estabelecimento de saúde?

A integração entre arquitetos e administradores é fundamental para que o edifício hospitalar se torne não apenas eficiente, mas também acolhedor, proporcionando qualidade espacial tanto para os pacientes como para os profissionais da saúde. É notório que um ambiente bem projetado não basta para se atingir a excelência no atendimento em saúde, sendo necessário um trabalho integrado entre os gestores e os designers. Em muitos aspectos, a qualidade do hospital depende da capacidade de se adaptar a mudanças organizacionais, operacionais e técnicas.

Desde a concepção à operação de um hospital, arquitetos e administradores devem trabalhar em harmonia, considerando aspectos importantes tais como o número crescente de pacientes, a eficiência e a durabilidade da edificação e sua flexibilidade para sofrer mudanças. O controle das infecções hospitalares, por exemplo, é uma área em que arquitetos e administradores podem e devem trabalhar em conjunto. Medidas simples, como a lavagem de mãos e a utilização de dispensadores de álcool-gel são vistas como indispensáveis, e dependem de ações de ambas as partes para que sejam eficientemente aplicadas.

O mesmo vale para a especificação, por parte dos designers, de materiais apropriados a cada tipo de utilização, que possibilitem a simplificação e agilidade dos processos de limpeza e desinfecção de superfícies, levando à economia de tempo e recursos na manutenção das edificações. Estes são apenas alguns exemplos de como a arquitetura pode impactar a administração de um estabelecimento de saúde.

De que maneira, o arquiteto e/ou o engenheiro do edifício podem contribuir mais para a gestão do hospital?

A rápida e constante evolução tecnológica e a consequente necessidade dos hospitais sofrerem mudanças, seja na forma de readequações ou ampliações, exigem que conceitos como expansibilidade, acessibilidade, flexibilidade, modularidade, automatização, sustentabilidade e humanização sejam incorporados aos projetos, desde a fase de planejamento inicial. Como dizia o saudoso arquiteto e professor Jarbas Karman, “o hospital é uma obra aberta” em que arquitetos e engenheiros possuem papéis complementares e fundamentais.

Os arquitetos, em particular, devem conhecer muito bem os detalhes do funcionamento do estabelecimento de saúde, para que possam inclusive ser capazes de questioná-los e propor alterações que proporcionem maior eficiência e qualidade nos tratamentos. Um exemplo clássico é a quantidade, tamanho e a disposição de postos de enfermagem e de outras estações de trabalho, de forma a otimizar o percurso e melhorar os aspectos de ergonomia e qualidade no ambiente de trabalho, que impactam diretamente a qualidade e a eficiência do atendimento.

Como a arquitetura preparou-se para atender as novas necessidades de pacientes e profissionais de saúde?

A concepção de um edifício hospitalar é uma das tarefas mais complexas que um arquiteto pode enfrentar. Não se trata apenas de considerar os aspectos puramente funcionais ou técnicos, mas uma série de condicionantes, que incluem desde os aspectos geográficos, socioeconômicos e epidemiológicos da região que se insere o serviço de saúde, até o atendimento dos requisitos específicos de funcionamento de cada setor e as normas técnicas pertinentes.

Observa-se que a constante modernização tecnológica, ocorrida nos últimos anos, tem elevado ainda mais a complexidade dos serviços de saúde e, na maioria dos casos, a qualidade dos desenhos dos ambientes não tem conseguido acompanhar este desenvolvimento. Técnicas, soluções, sistemas, procedimentos, espaços e equipamentos superados ou equivocados, muitas vezes oneram inutilmente as instituições de saúde e prejudicam a qualidade do atendimento em geral.

No entanto, observa-se que tanto os arquitetos como outros profissionais envolvidos com as edificações hospitalares, vêm buscando cada vez mais se aperfeiçoar e se especializar, seja participando de cursos, palestras e outros eventos similares, ou mesmo buscando informação em publicações especializadas.

A constante atualização das normas técnicas e da legislação pertinente também significa que o profissional que deseja atuar com eficiência e qualidade na área da saúde procure estar constantemente atento e buscando se informar, inclusive quanto às novas tendências e exigências do mercado, dentre as quais se destacam a humanização, a automação, a flexibilidade e a sustentabilidade.

A Arquitetura Baseada em Evidência tem ganhado destaque nos últimos anos. O que propõe esse conceito, ele tem sido efetivamente adotado nos hospitais, e, como os administradores hospitalares devem se preparar?

Apesar de existir há décadas, pode-se dizer que apenas nos últimos anos alguns hospitais do Brasil começaram a adotar recomendações derivadas dos conceitos de Arquitetura Baseada em Evidências (ABE), que pode ser definido como o uso consciente e criterioso das melhores evidências científicas, advindas da pesquisa, nas decisões projetuais. As primeiras observações sobre o aspecto curativo do ambiente remontam à época da Grécia Antiga.

Muito citada por sua importância na história das edificações hospitalares, a enfermeira Florence Nightingale, em meados de 1860, notou que o ar-fresco e a ventilação eram as principais características de um espaço de cura, reconhecendo também a importância do silêncio, da iluminação apropriada, do calor e da água limpa. Nos anos 70, nos EUA e Inglaterra, pesquisadores estudaram o impacto dos projetos de hospitais na efetividade dos trabalhadores da saúde.

Nos anos 80, o Professor Roger Ulrich, da Universidade do Texas A&M, coordenou um extenso projeto de pesquisa, onde se observou, dentre outras coisas, que os pacientes cirúrgicos que usufruíam de vistas para a natureza sofriam menos complicações, usavam uma quantidade menor analgésicos e recebiam alta mais cedo do que aqueles que não possuíam tais condições.

Sem dúvida, projetos baseados nos preceitos da ABE tornaram-se uma importante tendência mundial, colaborando para que erros e vícios do passado sejam corrigidos e os ambientes hospitalares se tornem cada vez mais resolutivos. Os conceitos de ABE indicam, por exemplo, soluções específicas e que geram impactos mensuráveis, tais como a redução das taxas de infecção hospitalar.

As recomendações advindas desta metodologia incluem, dentre outras, a opção por internação em quartos individuais, o melhor posicionamento de janelas, a utilização de distrações positivas, a qualidade e o conforto ambiental, expresso em boas condições de iluminação e da qualidade do ar e em baixos níveis de ruído. O papel do administrador hospitalar, neste contexto, é fundamental, visto que a adoção de muitas destas soluções depende exclusivamente de decisões gerenciais, que impactam diretamente a forma de trabalho e as rotinas no ambiente hospitalar.

Qual o impacto do design da saúde na eficiência do tratamento. O que mostram as experiências nacionais e internacionais?

Podemos afirmar que já existe um consenso geral, incluído entre as instituições governamentais, sobre a necessidade de se criar ambientes hospitalares que, além de funcionais, sejam também focados no paciente e nos acompanhantes, possuindo características que possibilitem a redução do estresse.

Um dos principais fatores que motivaram a conscientização acerca da importância de um bom design no ambiente hospitalar é a disponibilidade de evidências científicas que demonstram como as características ambientais influenciam a saúde do paciente e os resultados. Muitos estudos têm mostrado que um ambiente bem projetado atua de forma mensurável para reduzir o estresse, a ansiedade, a pressão arterial e até a dor.

Iniciativas relativas à humanização do ambiente hospitalar vêm sendo adotadas nos estabelecimentos de saúde há muitos anos, porém podese dizer que apenas nas últimas duas décadas estas iniciativas tomaram uma posição mais central, proporcionando a quebra de importantes paradigmas.

Existem diversos bons exemplos de aplicação dos conceitos de humanização nos ambientes hospitalares brasileiros, porém existe espaço para evolução e maior conscientização. Para que isto ocorra é fundamental que haja a troca de experiências e informações e a divulgação de casos de sucesso, em eventos e publicações, tais como os proporcionados pela ABDEH e seus parceiros.

Outro ponto de destaque tem sido o chamado Hospital Verde. Esse é um conceito realmente possível para uma institui- ção de saúde? Por que vemos investimentos tão tímidos na área de saúde, nesta direção?

Um “Hospital Verde” pode ser definido como um estabelecimento em que se utilizam soluções de sustentabilidade e melhoria da eficiência energética em diversas áreas, desde a construção até a operação. Embora o custo de adotar as práticas ditas “verdes” pode ser maior inicialmente, já existe consenso que reduzir os custos com energia vale muito a pena no longo prazo.

Do ponto de vista operacional, um estabelecimento de saúde chega a demandar o dobro da energia necessária para seu funcionamento quando comparado a um edifício comercial típico, sem contar que o edifício hospitalar funciona ininterruptamente, contando com sistemas e equipamentos que demandam muita água e energia.

De acordo com dados recentes do Green Building Council, os hospitais que estão investindo na redução do consumo de energia e de água, bem como no gerenciamento de resíduos, experimentam retornos quase imediatos nos investimentos.

No Brasil, diversos hospitais já vêm adotando iniciativas neste sentido, porém considera-se que ainda são, em sua maioria, ações isoladas e esparsas, existindo um importante caminho a ser seguido, inclusive com relação aos incentivos governamentais.

Uma das falhas, em todos os âmbitos, da gestão de serviços de saúde é a falta de planejamento de longo prazo. Como isso impacta na gestão do espaço da saúde?

Considero fundamental que na fase inicial de um empreendimento hospitalar haja a adoção de um planejamento estratégico multidisciplinar, que resulte em um plano diretor, o que na maioria das vezes não ocorre ou é feito de forma precária.

O plano diretor de desenvolvimento de um Estabelecimento Assistencial de Saúde deve incluir o planejamento da organização espacial física das edificações, com relação à setorização, circulações, etc., sua situação atual e a pretendida a médio e em longo prazo, prevendo os investimentos necessários ao longo do tempo para que o plano se concretize. Com esse instrumento é possível, também, planejar o aporte financeiro e tecnológico na edificação, minimizando os problemas e interferências que as intervenções possam causar.

O Congresso Brasileiro para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar, de 2014, trouxe como tema central a Excelência em Ambientes de Saúde. Quais passos devem ser tomados para que os administradores atinjam esse conceito de excelência em suas instituições?

O tema “Excelência em Ambientes de Saúde: experiências e evidências” foi escolhido exatamente por proporcionar uma discussão de caráter multidisciplinar acerca dos elementos considerados fundamentais na busca pela melhor qualidade dos ambientes destinados à saúde.

Em especial, o tema da excelência aparece num momento em que se discute a ascensão dos edifícios de saúde no Brasil a um novo patamar, advindo do reconhecimento de que importantes avanços foram conquistados nas últimas décadas. Os subtemas escolhidos servem como importantes balizadores sobre o que se configura a excelência em edificações hospitalares: Ambientes Terapêuticos e Humanização, Meio-Ambiente e Sustentabilidade, Normas e Regulamentações em Saúde, Gestão de Recursos Físicos e Tecnológicos e Foco no Paciente.

Estes são os temas que caracterizam e definem o novo paradigma da edificação de saúde. Conforme mencionado, o sucesso na busca pela excelência depende de uma abordagem notadamente multidisciplinar, na qual a participação de administradores, da equipe médica e de enfermagem, de arquitetos e engenheiros, engenheiros clínicos, entre outros, deve ser fomentada, com o entendimento de que somente com o trabalho integrado destes componentes será possível atingir os objetivos pretendidos.

Prof. Arq. Marcio Nascimento de Oliveira possui graduação em Arquitetura pela Universidade de Brasília e mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Mcgill University (Montreal, Canadá). Atua como consultor do Ministério da Saúde desde 1999, onde, dentre outras atividades, criou e coordenou o projeto SomaSUS, utilizado hoje por mais de 5 mil profissionais que trabalham com a infraestrutura dos serviços de saúde.

Professor convidado em cursos de especialização e palestrante em eventos nacionais e internacionais. Autor e consultor de diversos projetos na área da saúde, incluindo clínicas, laboratórios e hospitais. É o atual diretor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Brasília, onde também coordena o Curso de Especialização em Arquitetura de Sistemas de Saúde – EASS. Foi Vice-Presidente Executivo e de Desenvolvimento Técnico-Científico da ABDEH entre 2008 e 2014, tendo sido escolhido para assumir a presidência da associação a partir de agosto de 2014.

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