e-Hospital – Desconstruindo a Gestão Hospitalar
e-Hospital – Desconstruindo a Gestão Hospitalar

 

“Ultimamente tem se passado muitos anos”.

Essa frase do escritor Rubem Fonseca nunca foi tão atual e inexorável. A obsolescência corre atrás de nós destruindo instituições, ideias, paradigmas e, infelizmente, pessoas. Esse turbilhão de inovações-por-minuto, essa massa de novas tecnologias que nos persegue incansavelmente pode ser incômoda, devastadora e até depressiva. Mas, essas mesmas tecnologias são a solução para muitos de nossos antigos e insolúveis problemas.

Como conviver com esse tsunami- digital sempre dependerá de nossa atitude diante das novas realidades. Medo não ajuda, indiferença tão pouco. É necessário que os gestores abram os porões da mente e, com disposição, separem a tecnologia rocambolesca e inútil, da tecnologia construtiva, exequível e transformadora.

Hospitais brasileiros carecem de modelos transformadores de gestão. Transformação não significa necessariamente ruptura. Gestores hospitalares, principalmente aqueles que dividem seu tempo entre o consultório e o gabinete da administração, ainda olham as Tecnologias de Informação e Comunicação em Saúde (eHealth) como algo que traz risco, incompreensão, custos e, acima de tudo, perda de poder.

Há duas formas de encarar esse fato: (1) aceitá-lo e empurrar as transformações digitais para o futuro; ou (2) desconfiar que essa avaliação seja equivocada e “puxar o futuro para o agora”. Sim, claro, existe uma terceira possibilidade: ser condenado ao flagelo da insolvência gerencial (que está a poucos passos da insolvência corporativa).

Hospitais digitais eHospital – não são casas de tortura gerencial, mas ambientes em que o “certo e o errado” não são tão confusos, tão irracionais, ou tão distantes. O grande problema da gestão hospitalar do século XXI é que não temos mais o tempo que tínhamos para perceber, analisar, discutir e decidir sobre o que é certo ou errado. No início do século XX tínhamos, por exemplo, alguns dias ou semanas para decidir sobre o remanejamento de leitos dentro de uma UTI.

Hoje essa decisão não pode ultrapassar alguns minutos, no máximo um par de horas. Nos anos 50 era possível convocar uma reunião do comitê clínico para decidir sobre o diagnóstico dos pacientes, hoje é improvável que isso possa acontecer.

A escala médica era “imexível”, hoje precisa ser flexível. A farmácia central podia ser abastecida mensalmente, hoje seu ciclo de reposição não poucas vezes é diário. A enfermagem podia ser mais altruísta e menos especialista, e a higienização podia ser mais um tema de debate acadêmico dentro dos hospitais. Na segunda década do século XXI, o hospital está sob enorme pressão. Parece que “todos perderam a paciência”.

“Hoje, a distância entre o tempo de aferição e o tempo de decisão depende eminentemente das Tecnologias de Informação que o gestor tem às mãos. Hospitais que adiam seus projetos tecnológicos conspiram a favor do ciclo da decadência” 

Hoje, a distância entre o tempo de aferição e o tempo de decisão depende eminentemente das Tecnologias de Informação que o gestor tem às mãos. Hospitais que adiam seus projetos de implantação de código de barras, por exemplo, ou prescrição eletrônica, ou prontuário eletrônico e integração sistêmica conspiram a favor do ciclo da decadência.

A falta de recursos, o aperto das contas, a indolência dos custos médicos, a carência de treinamento, as intolerâncias do paciente, a intransigência dos órgãos reguladores (muitas vezes obtusas) e a resistência cultural dos profissionais médicos não são problemas que serão “curados” pela Tecnologia, mas de maneira “misericordiosa” ela é capaz de diminuir consideravelmente as suas dimensões.

Ocorre que para construir a vertical de eHealth é preciso desconstruir mitos, enterrar paradigmas, alicerçar novas bases gerenciais e aceitar de maneira inequívoca que a inovação é mandatória e não opcional. Como explicou o médico e pesquisador Gunther Eysenbach, da University Health Network: “eHealth envolve, além de desenvolvimento tecnológico, um estado mental, um modo de pensar, uma atitude e um compromisso de interconexão com o pensamento global visando melhorar a Saúde e a sua gestão através das TICs”.

Muitos hospitais já aceitaram essa realidade e concentram suas atenções no desenvolvimento de eHealth dentro de seus ambientes de gestão. Já caminham, enfim, na direção do eHospital. Nesse sentido, já fazem uso intenso das ferramentas tecnológicas e já conseguem perceber a melhoria na gestão e na redução de custeio.

As novas estações de PACS (Picture Archiving and Communication Systems), por exemplo, quando aplicadas em conjunto com os Sistemas de Gestão Hospitalar (HIS – Hospital Information System), têm produzido (ao contrário do que muitos falam) sensíveis reduções de custeio (up-front).

As novas gerações das estações digitais de Radiologia, Tomografia e Ultrassonografia, cada vez mais compactadas, seguras e inteligentes, atuam como eixos de prevenção às patologias crônicas e dão apoio ao desenvolvimento de novos procedimentos terapêuticos (mais rápidos).

Ou seja, o tempo de aferição e o de decisão diagnóstica pode ser reduzido, trazendo uma sensível redução de custo para as fontes pagadoras, embora poucas entendam bem isso. Outro exemplo são as soluções de Prontuário Eletrônico (PEP), que se multiplicam, barateiam e impõem uma nova ordem na gestão clínica do paciente, muita mais voltada à qualidade da atenção e à redução de custeio. Relatório publicado pelo Governo dos EUA, através da agência Government Accountability Office (GAO), mostrou que os médicos norte-americanos estão utilizando mais o PEP (EHR – Electronic Health Record).

O estudo mostra que 57% dos médicos filiados ao Medicare (seguro de saúde destinado às pessoas com mais idade) já utilizam o EHR em suas práticas diárias. Outra pesquisa foi publicada em junho de 2012 pela empresa de consultoria KPMG, sendo realizada junto a gestores de 220 hospitais nos EUA. Ela mostrou que 49% dos líderes hospitalares entrevistados disseram que o projeto de implementação do EHR em sua instituição já completou mais de 50%.

No centro da nova realidade hospitalar existe um “marco regulatório”, uma ideia transformadora, ou seja, um Sistema de Informação Hospitalar Integrado capaz de cobrir as principais áreas funcionais, como o atendimento ao paciente, os serviços de laboratório, o fluxo de processos que envolvem todas as áreas, a troca de documentos e informações e, principalmente, o Registro Médico Digital do Paciente. Trata- se de softwares centrados no paciente com add-ons para a gestão financeira da organização.

Existem inúmeras soluções no mercado, baseadas na Web, que podem alavancar essa nova perspectiva de gestão, muito mais lastreada no aprendizado constante (hospitais são usinas de aprendizado) do que no policiamento dos profissionais de Saúde.

É imperativo que médicos, enfermeiros, terapeutas, escriturários, assistentes, gerentes e coordenadores clínicos possam acessar as informações dos pacientes que são relevantes à sua tarefa, nem mais e nem menos. O turbilhão de dinheiro que se perde pelo duto da falta de comunicação interna é da ordem de 12%, segundo estudos internacionais. No Brasil não vislumbro nada inferior ao dobro desse valor.

Isso não significa necessariamente que deva existir um único Sistema Central (o antigo bureau de informações) que controle tudo, oriente a todos e produza valor (qualidade e efetividade) através do brilhantismo de um único gestor. A tecnologia atual permite o uso inteligente da Web, e de redes internas, com capacidade para extrair informações de diferentes fontes de dados. O nome disso é interoperabilidade, e sua funcionalidade fornece poder de decisão (empowerment) a todos os gestores da organização.

Como toda a produção hospitalar diária fica armazenada, cada diferente nível da organização pode acessar os dados identificando os erros e acertos. Essa gestão por aprendizado só é possível através das tecnologias de informação e comunicação. Não existe hospital moderno.

O equívoco dessa semântica está levando os gestores à estetização exagerada dos hospitais. Luxo, comodidade, grandes salões, obras de arte, um rito a estética em prejuízo à efetividade do atendimento das demais demandas do paciente (bem mais importantes). O ciclo de internação de um paciente, por exemplo, dentro de alguns dos mais celebrados hospitais do país é uma sequência de equívocos, quase todos gerados pela falta de sistemas de informação adequados, ou por uma miscelânea de aplicações que “não se conversam”.

Da chegada ao hospital até duas horas após estar instalado no quarto, o paciente em geral (ou seu acompanhante) é obrigado a repetir seus dados inúmeras vezes (para o registro de entrada, para a seguradora, para a enfermagem, para o nutricionista, para o laboratório, para o anestesista…).

Mais do que um incômodo (normalmente, nem reclamado pelo paciente) trata-se de uma ciranda de custos totalmente desnecessários. Como ser um Hospital do Futuro? A preocupação não deveria ser o futuro, mas o presente. O que é possível mudar já? O que não estou fazendo agora? A ideia de que “no futuro teremos isso”, ou “um dia a gente consegue”, ou ainda “não estamos prontos para isso” é um corolário de desculpas para postergar as decisões e empurrar as transformações para debaixo do tapete.

Essa rotatória cômoda inibe o Planejamento (este sim, o melhor instrumento para garantir estar no futuro) e reduz dia após dia a perspectiva de incrementar valor ao presente. O resultado é que o Brasil, guardadas as exceções de sempre, coleciona uma enorme quantidade de hospitais do passado.

Tecnologias de Informação de Comunicação em Saúde (eHealth) não são a solução para todos os problemas, mas eles não serão resolvidos em escala, de forma produtiva e segura, sem elas.

Quanto ao medo do fracasso, que baliza muitos dos gestores e inibe a transformação, lembro que sempre haverá uma nova chance para corrigir nossos erros, inclusive os sérios. Fracasso não é cair, mas sim ficar embaixo.

Guilherme Hummel

Consultor, Pesquisador e Mentor em Tecnologias de Informação em Comunicação em Saúde (eHealth), participando há mais de 17 anos em projetos nessa área dentro e fora do país.