Conforto em Ambientes de Saúde
Conforto em Ambientes de Saúde

 

A melhoria de ambientes destinados ao atendimento à saúde podem aumentar a comodidade de pacientes, trabalhadores e demais usuários de instituições médico-hospitalares

As questões pertinentes ao conforto ambiental assumiram particular relevância a partir da última década do século XX. Nesse período, as políticas e as atitudes inerentes à sustentabilidade ambiental passaram a ter dimensões crescentes de divulgação.

Por consequência, a organização da informação referente aos aspectos ambientais e aos estabelecimentos de serviços de saúde demandou a devida adequação técnica por meio de normas e regulamentações compatíveis.

Focando gestores, projetistas de prédios hospitalares, profissionais da área e autoridades sanitárias, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), atualizou as normas com a publicação Conforto Ambiental em Estabelecimentos Assistenciais de Saúde. O guia tem orientações para a melhoria de ambientes destinados ao atendimento à saúde a fim de aumentar a comodidade de pacientes, trabalhadores e demais usuários desses estabelecimentos.

Desde 2002, a Anvisa já  regulamenta este tema. Naquele ano, a Agência publicou a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 50, no qual apresentava as primeiras disposições sobre o assunto para as unidades de saúde brasileiras, com noções de conforto térmico, acústico e luminoso.

O novo manual aprofunda essas diretrizes técnicas e abrange questões como os confortos olfativo, ergonômico e visual. Superar as dificuldades que se apresentam diante de cotidianas decisões projetuais e de gestão – decisões específicas como reformas, ampliações, construções, localização de equipamentos, manutenção e em geral a dotação, a distribuição e a utilização dos recursos físicos para enfrentar a demanda dos serviços de saúde com critérios de equidade, eficácia e eficiência – também constitui a proposta do estudo.

O manual foi elaborado por meio do Termo de Cooperação 64, firmado entre a Anvisa e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), e escrito pelo doutor em Arquitetura de Ambientes de Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fábio Oliveira Bitencourt Filho, com a supervisão técnica da Gerência-Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde (GGTES/Anvisa).

“Em ambientes onde são realizados serviços de assistência à saúde, fatores ambientais que acabam por definir condições de conforto devem ser levados em consideração durante o desenvolvimento da concepção arquitetônica desses estabelecimentos”, explica a gerente de Regulação e Controle Sanitário em Serviços de Saúde da Agência, Maria Angela da Paz.

As orientações buscam um equilíbrio entre as determinações dos regulamentos técnicos e as diversidades ambiental, social e cultural presentes quando da concepção predial de hospitais, clínicas e postos de saúde, por exemplo.

O lançamento do trabalho se insere nos esforços que a Anvisa tem feito para colaborar com a segurança e humanização nas edificações hospitalares, contribuindo assim com o aumento da qualidade no atendimento aos pacientes, em consonância com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde.

ACOMPANHE A SEGUIR ALGUNS DOS PRINCIPAIS PONTOS DESTACADOS PELA ANVISA

CONFORTO AMBIENTAL E HUMANO

Estudos a respeito de conforto têm demonstrado que condições desfavoráveis – como excesso ou ausência de calor, umidade, ventilação e renovação do ar, ruídos intensos e constantes, condi- ções lumínicas inadequadas, odores distintos e diversos – podem representar uma grande fonte de tensão no desenvolvimento das atividades de trabalho.

Para cada uma das variáveis ambientais (luz, clima, ruídos, odores, cores) há características específicas mais ou menos facilitadoras das sensações humanas, resultando nos segmentos de percepção visual, lumínico, acústico, higrotérmico, olfativo e ergonômico.

Em ambientes onde são realizados serviços de assistência à saúde, onde é frequente a ocorrência de situações críticas e estressantes envolvendo relações interpessoais e indivíduos com algum grau de sofrimento físico e/ou psíquico, os fatores ambientais que definem as condições de conforto (acústico, visual, lumínico, higrotérmico, olfativo e ergonômico) são essenciais durante o desenvolvimento da concepção arquitetônica.

Cabe destacar que quanto mais complexas as ações executadas pelo indivíduo maior a responsabilidade sobre os riscos envolvidos e mais cuidados se tornam necessários com essas questões na elaboração do projeto e na sua implantação.

Quanto mais cedo as ingerências, a avaliação e a influência ocorrerem na fase de planejamento, tanto mais efetivo e qualificado e menos oneroso deverá ser o resultado da edificação projetada.

As dimensões definidas pelas diversas legislações que conformam e determinam a construção do espaço para serviços de saúde foram estabelecidas sob padrões históricos de conforto que privilegiaram bem mais os profissionais de saúde e os fatores vinculados ao limpo ou ao científico que os aspectos da sensibilidade e da expectativa de conforto de todos os usuários.

Encontrar o equilíbrio entre as demandas dos diversos usuários dos ambientes de saúde é um desafio constante, sobretudo quando se torna imperativo apresentar essas informações de modo plenamente compreensível aos interlocutores, aos autores de projetos e às autoridades sanitárias, que farão as avaliações, a fiscalização e o controle desses equipamentos de saúde.

Providências para a busca do equilíbrio entre as determinações formais dos regulamentos existentes e as normatizações técnicas aliadas à diversidade ambiental, social e cultural representam algumas das estratégias que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) procura rever por meio deste estudo e da atualização do conhecimento sobre o tema.

SENSAÇÕES E PERCEPEÇÕES

Ao contrário da sensação de desconforto, o conforto humano não é uma percepção facilmente mensurável. Resultado da harmonia de vários condicionantes ambientais (higrotérmicos, acústicos, visuais, olfativos, da qualidade do ar, entre outros) e fisiológicos (metabolismo, idade, etc.), essa sensação deve propiciar a integração do homem (usuário) a seu meio, possibilitando a otimização do seu desempenho em suas atividades.

Em 2006, o pesquisador, arquiteto e professor Romano Del Nord, da Universitá de Firenze, Itália, publicou a pesquisa “O ambiente e os fatores perceptivo-sensoriais”, em que apresenta o conforto como capaz de produzir relevantes resultados para a humanização da assistência à saúde, a saber:

• Promover a redução do estresse e da fadiga dos profissionais de saúde e melhoria da eficácia assistencial.

• Melhorar a segurança do paciente.

• Reduzir o estresse no paciente e ampliar a possibilidade do êxito clínico.

• Promover melhoria ampla da qualidade da prestação da assistência.

Outro aspecto que merece destaque na consideração da sensa ção de conforto se refere à abordagem da individualidade humana com que o conforto deve ser tratado. O conforto é uma sensação individual e está diretamente vinculado às características fisiológicas, além de ser uma exigência da condição humana, pois

“O homem tem melhores condições de vida e de saúde quando seu organismo pode funcionar sem ser submetido à fadiga ou estresse, inclusive térmico”.

Criar condições de conforto, portanto, é um desafio para combinar os valores de equilíbrio para cada usuário, particularmente ao lidar com os edifícios de saúde, onde demandas de temperatura, ruídos e iluminação apresentam condições distintas. Os referidos componentes ambientais podem ser expressos em seus aspectos negativos para a condição humana, podem até “causar efeitos de dores, tensão, adoecimento e morte”, segundo o arquiteto e professor húngaro Victor Olgyay.

Ao mesmo tempo, este autor também afirma que se pode alcançar a “máxima efici- ência na produtividade, saúde e energia mental e física” por meio dos mesmos componentes ambientais. Dessa forma, os fatores ambientais podem causar as condições extremas que envolvem a vida: qualificar e promover saúde e, ao mesmo tempo, conduzir ao desconforto, ao sofrimento e à morte.

SUSTENTABILIDADE

Quando se trata de edificações para ambientes de saúde e sua eventual contribuição para o desenvolvimento sustentável, é frequente a referência à dificuldade de atendimento dos requisitos de sustentabilidade. Em tese, o edifício hospitalar estaria dispensado dessas exigências. Com o mesmo argumento, alguns profissionais que projetam ou constroem justificam a inviabilidade da adequação e da compatibilidade físico-funcional.

No entanto, considerando-se as características das edificações existentes, a necessidade de promoção da saúde pela contribuição da arquitetura e os novos projetos de estabelecimentos para serviços de saúde, há muito por fazer no processo de adequações e inovações conceituais e projetuais pelo desenvolvimento sustentável.

As soluções de sustentabilidade desafiam os profissionais que projetam os ambientes, além de suscitarem neles e em todos os usuários que representam a sociedade uma importante reflexão.

Essas soluções devem ser consideradas prioritariamente e estar sempre vinculadas às características geográficas regionais pertinentes à diversidade climática do Brasil. A seguir, algumas soluções sustentáveis que podem e devem ser aplicadas a edificações hospitalares:

1. Uso da ventilação natural para reduzir a temperatura dos ambientes internos.

2. Uso da captação da energia solar para aquecimento da água e sua utilização como fonte de energia elétrica.

3. Utilização de telhados verdes para atenuar o impacto térmico nos espaços interiores.

4. Uso do brise soleil (quebra-sol) para reduzir o calor interno.

5. Aplicação de soluções paisagísticas para reduzir os ruídos periféricos e atenuar o calor em fachadas muito ensolaradas.

6. Em climas quentes/secos é recomendada a utilização de espelhos d’água (piscinas, lagos, chafarizes, etc.) como atenuadores da temperatura radiante. No entanto, devem ser adotados alguns cuidados para que a água não facilite a proliferação de vetores, em especial os mosquitos.

A utilização do paisagismo pode representar uma contribuição importante para a qualidade climática da edificação e da ambiência geral da paisagem. Além dos aspectos relacionados ao sombreamento que determinadas espécies de árvores podem proporcionar, deve-se ressaltar a possibilidade de gerenciamento da trajetória dos ventos.

Dessa forma, o tratamento paisagístico poderá facilitar a manutenção de uma ventilação mínima em toda a edificação.

CONFORTO ACÚSTICO

O ambiente hospitalar vive a paradoxal situação de, por um lado, ser um local que exige condições de conforto acústico especiais, com níveis de ruído que atendam às recomenda- ções estabelecidas pelas normas técnicas, e, por outro, ser um local onde situações e equipamentos produzem um elevado nível de ruídos.

Algumas pesquisas realizadas em hospitais da Inglaterra sobre controle de ruídos em hospitais e publicadas pelo King’s Fund Report demonstraram que para se conseguir conforto acústico “o fator mais simples a ser controlado é a disciplina sobre a equipe de profissionais de saúde”.

O arquiteto e engenheiro Jarbas Karman, escritor e pesquisador das questões ligadas ao ambiente hospitalar, considera que dentre os “vícios de origem” da construção dos estabelecimentos de saúde os ruídos e as vibrações deixam poucas alternativas de soluções posteriores para a manutenção e a segurança.

Ele avalia que os locais e os equipamentos prediais e especiais das instalações hospitalares são “agrupamento barulhento” que requerem implantação específica, com delimitações de localização adequadas.

Alguns ruídos específicos localizados em estabelecimentos de assistência à saúde são fontes significativas de desconforto tanto para pacientes quanto para os profissionais que lidam diretamente com as atividades assistenciais.

CONFORTO VISUAL

Para se estabelecer a qualidade do ambiente construído para assistência à saúde, há de se considerar os aspectos de conforto visual proporcionados pelos componentes de luz e cor com o objetivo de facilitar o desempenho das atividades a serem desenvolvidas.

Conhecer e compreender os novos materiais utilizados em iluminação e, em especial, o funcionamento de diodos emissores de luz (light emitting diodes – LED) e outras tecnologias da iluminação, suas características físicas, vantagens, desvantagens, utilidades, impactos ambientais, além dos impactos na utilização em edificações hospitalares é extremamente importante.

Outras facetas concernentes à utilização de LED também devem ser consideradas: economia proporcionada, qualidade da luz, tempo de vida útil e redução na geração de calor, assim como as aplicações específicas na área médica, tais como fototerapia, terapia fotodinâmica no combate ao câncer e polimerização de compostos dentários.

iluminacaoILUMINAÇÃO

O controle do uso da luz e de sua intensidade deve constituir uma preocupação na hora de projetar ambientes hospitalares. De acordo com a avaliação da enfermeira Alice Lerman (2000) em sua pesquisa de mestrado, Birth environments, o conforto visual do ambiente pode “encorajar a ativa consciência na participação da ação terapêutica”.

O desenho do ambiente deve, portanto, levar em conta as demandas lumínicas do usuário, além da essencialidade das condições naturais do ambiente. Dessa forma, a inserção de aberturas para a paisagem externa deve ser um componente efetivamente integrado às soluções projetuais, o que foi considerado neste estudo.

Para essas aberturas é considerada também a utilização de materiais e elementos arquitetônicos que contemplam a privacidade dos usuários do ambiente hospitalar (brise soleil/quebra-sol, varandas, demais elementos arquitetônicos que contribuem para o aproveitamento das condições naturais).

conforto-ergonomicoCONFORTO ERGONÔMICO

Uma das atribuições da ciência da ergonomia é contribuir para uma melhor qualidade de vida.A própria origem da ergonomia reflete necessidades fundamentais voltadas para a função trabalho, destacando-se que a realização da atividade deve estar adequada a cada indivíduo. No Brasil, diversos hospitais recorrem aos profissionais de ergonomia.

A ergonomia pode contribuir largamente para a prevenção de erros, melhorando o desempenho. No projeto de sistemas mais complexos, como um centro de controle operacional de uma ressonância magnética, equipamentos de hemodinâmica, postos de enfermagem, a ergonomia surge como um dos fatores mais importantes na redução dos erros operacionais.

Conectar os elos do conhecimento ergonômico com a prá- tica funcional de cada pessoa em edificações para serviços de saúde deve resultar em saúde, segurança e conforto. Esta é uma forma de viver melhor e, por consequência, viver mais e com qualidade.

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